25 de fevereiro de 2007

“O País demitiu-se”

Alípio de Freitas recorda Zeca Afonso, mas diz que Abril se desconstruiu

No dia em passam 20 anos sobre a morte de Zeca Afonso, Alípio de Freitas, presidente da Associação José Afonso, que privou com o cantautor nos últimos anos de vida, recorda o amigo, mas revela-se peremptório e crítico quanto à situação socio-economica-política em que o País mergulhou.


“Quando conheci o Zeca, tive a impressão que já o conhecia há muitos anos, e ele também teve essa impressão. Por isso, costumo dizer que eu não conheci o Zeca, eu reencontrei o Zeca”. É com estas palavras que Alípio de Freitas – professor na Universidade Lusófona, em Lisboa, onde ensina Economia Política do Mundo Contemporâneo, e desde o ano passado presidente da Associação José Afonso (AJA) que considera ser a sua actividade principal – se refere ao eterno amigo Zeca Afonso.
Alípio de Freitas é natural de Trás-os-Montes, estudou e formou-se no Seminário de Bragança, onde foi ordenado padre. Logo que saiu do seminário dirigiu uma escola de artes e ofícios e foi pároco na freguesia de Rio de Onor. Mais tarde foi para o Brasil, a convite da Diocese do Maranhão. No Brasil, foi padre e professor [na Universidade do Maranhão] e é lá que faz uma descoberta que havia de o marcar profundamente “foi lá que descobri o que era a miséria. Quando cheguei ao Brasil havia pessoas que viviam muito abaixo da miséria”, recorda. Lá esteve ligado às lutas camponesas, movimentos de carácter revolucionário, que objectivavam a reforma agrária, ou seja a terra a quem a trabalhava.

“A coisa que eu mais queria era conhecer o Zeca”
“Quando se deu o 25 de Abril, estava preso no Brasil [1970-1979], em Santa Cruz, um dos piores presídios por onde passei, e eu passei por muitos”, salienta Alípio de Freitas. E é durante o presídio, em 1977, que tem conhecimento de uma cantiga que o Zeca escreveu sobre ele, “até aí eu não sabia que existia a cantiga, nem sequer que existia o Zeca. Mas ele ouviu falar de mim, porque houve um movimento aqui em Portugal para a minha libertação, bem como para a libertação de outros presos políticos portugueses tanto no Brasil, como na Argentina e noutras partes do mundo, mas os governos nunca se interessaram pelo nosso repatriamento”, observa. Acrescentando: “Saí da prisão em 1979 e em 1980 vim a Portugal e a coisa que eu mais queria era conhecer o Zeca. Nessa altura, não conhecia cá ninguém, tinha alguns amigos que tinham sido exilados no Brasil, que estavam no Partido Socialista, como o Tito de Morais e outros, e então alguém me disse que podia encontrar essa gente de esquerda numa livraria chamada Opinião, no Bairro Alto. Eu fui lá, estava a ver uns livros e chegou o Vitorino, ele olhou para mim e reconheceu-me, fomos até ao café, no terceiro andar, estavam lá outras pessoas, apresentou-me, e entretanto disse-me: ‘O Zeca não está cá, está na Alemanha, mas vem depois de amanhã, porque vai haver um concerto de apoio às vítimas da América Latina no Pavilhão dos Desportos [actual Pavilhão Carlos Lopes]’. Nesse dia lá fui, apresentaram-me o Zeca e houve uma empatia muito forte. Por isso é que digo que eu não conheci o Zeca, eu reencontrei o Zeca”.
A empatia foi tal que, desde logo, começaram a conversar sobre coisas das suas vidas. “Falámos sobre muitas coisas, nomeadamente sobre a América Latina. E ele convidou-me para no dia seguinte ir a casa dele. Lá fui, mais o Vitorino, o Manolo Velho e o Júlio Pereira. Entretanto, saímos e fomos passear e o Zeca contou-me coisas da vida dele, contei-lhe coisas da minha vida, como se nos conhecêssemos de sempre”.
Entretanto, Alípio volta para o Brasil, e do Brasil vai para Moçambique. E foi lá que voltou a encontrar o Zeca, no seu último concerto fora de Portugal, em 1981. “Entretanto venho definitivamente para Portugal, em 1984, e começo a ir a casa dele, em Azeitão, já o Zeca estava muito doente. Nessa altura tomei uma atitude: manter o Zeca informado. O Zeca sempre gostou muito de estar informado, de saber o que se passava no mundo e à sua volta, e eu decidi fazer-lhe uma revista de imprensa diária. Todos os dias, ou quase todos os dias, ia a casa dele ler-lhe as notícias, contar-lhe as «fofocas» políticas, as anedotas”.

AJA
Quando Zeca Afonso morre, em 1987, os amigos decidem logo formar a Associação José Afonso. Durante os primeiros anos, com o apoio da Câmara Municipal do Seixal, a associação organizou o festival «Cantigas de Maio», entretanto as câmaras entraram em recessão económica e esse apoio deixou de existir, ditando o fim do festival. Pelo que, nos últimos doze anos, a associação andou um pouco à deriva, foram-se elegendo direcções, mas sem se realizarem actividades. Até que o ano passado, “estava eu em casa, no Alvito, Alentejo, e o Carlos Guerreiro me telefonou e me informou que tinham decidido nomear-me presidente da associação. E eu fui apanhado de surpresa porque até pensei que a associação já não existia”, afirma Alípio com um sorriso nos lábios.
Ao aceitar o cargo decidiu dedicar-se inteiramente à presidência da associação. “A minha principal preocupação foi pôr a associação a funcionar. E desde o ano passado que isso acontece”, garante.
Este ano, a propósito dos 20 anos da morte de José Afonso foi preparado um vasto programa com actividades que têm tido lugar no Norte, nomeadamente em Guimarães e no Porto, mas não só.
Esta mobilização do núcleo do Norte da AJA agrada bastante a Alípio tanto que pretende que a nível nacional surjam outros núcleos para que a acção da AJA seja mais abrangente.

Silêncio monumental
“Aqui as pessoas têm uma atitude exemplar nesse aspecto, já o ano passado organizaram coisas. Até porque, o Zeca não é uma coisa comemorativa, o Zeca é um cidadão. E não devemos esquecer que depois que o Zeca morreu fez-se um silêncio monumental, porque se o Zeca foi incómodo para os fascistas, foi muito mais incómodo para aqueles que assumiram o poder depois do 25 de Abril. Basta ver as canções, antes do 25 de Abril até os homens do regime as entendiam, agora, depois do 25 de Abril as canções do Zeca são muito mais contundentes”, afirma categoricamente. Quando lhe perguntamos porquê. A resposta sai-lhe de imediato: “Porque se foram fechando todas as portas que Abril abriu. Todo aquele mundo que era para ser construído a partir do 25 de Abril, que ele cantava e pelo qual ele lutou passou a não existir. E de repente «os vampiros», «os meninos nazis» estão aí hoje. Quer dizer, construiu-se Abril e depois desconstruiu-se. Até a questão do ministro da economia dizer na China: ‘venham para Portugal que em Portugal os salários são baixos’, é a mesma coisa que dizer que a Tailândia é um país do primeiro mundo. Os alemães, os franceses, ou os espanhóis nunca dirão isso”.
Além de manter vivo o espírito do Zeca, Alípio de Freitas confessa que pretende alcançar outros objectivos com a AJA e “torná-la um elemento unificador e um detonador da consciência das pessoas. É preciso que as pessoas tomem consciência da sua realidade, até para que sejam mais solidárias, mais activas, mais reivindicativas. Têm de tomar consciência dos seus direitos e dos seus deveres”. Concluindo que o País não está adormecido, “o País demitiu-se”.


Isabel Damião | Primeiro de Janeiro | 25 de Fevereiro de 2007

2 Comments:

reinaldo disse...

É isso aí, Alípio!
Continua a luta, velho amigo, e só assim eles no pasarán...

Abraços

Reinaldo

Anónimo disse...

Alô Alípio, li e reli seu livro "Resistir é Preciso" e andei querendo descobrir seu paradeiro, e eis que digitando seu nome no Google descubro que você voltou para Portugal. Na verdade gostaria de encontrá-lo, conhecê-lo pesssoalmente, para que que você autografase o livro de sua autoria. Não existe trajetória igual à sua narrada em livro no enfrentamento da ditadura militar; só a de Marighella na ditadura do Estado Novo, mas que sabemos da bravura de Marighella por outros, pois ele não escreveu livro de memórias de sua luta política.
Saúde e vida longa ao bravo Alípio.