"José Afonso e Coimbra” na Casa Municipal da Cultura de Coimbra

A Galeria Ferrer Correia, da Casa Municipal da Cultura acolhe, a partir do próximo dia 2, uma exposição fotográfica e biodiscográfica evocativa de José Afonso.
O período evocado na mostra que será inagurada quinta-feira, pelas 18H30, compreende o tempo em que Zeca Afonso esteve em Coimbra, quer como estudante do liceu e da Faculdade de Letras, quer como cantor, autor e compositor musicalmente ligado aos sons matricialmente identificáveis com a canção de Coimbra.
José Afonso nasceu em Aveiro, a 2 de Agosto de 1929, e faleceu em Setúbal, a 23 de Fevereiro de 1987, com 57 anos de idade.
Chegou a Coimbra em 1940 para frequentar o ensino liceal e, no ano lectivo de 1949/50, matriculou-se na Universidade de Coimbra, vindo a licenciar-se em Histórico-filosóficas, em 3 de Novembro de 1961.
Começou a cantar ainda estudante de liceu e, em 1953, gravou os seus dois primeiros discos de 78 rpm para a editora “Alvorada”.
Depois de algumas gravações de temas mais tradicionais de Coimbra revitaliza, a partir de 1961, a Balada como género musical ligado à Canção Coimbrã.
É com o viola Rui Pato que grava a sua fase mais lírica das baladas, embora surja, em 1963, o seu primeiro tema de forte intervenção musical, “Menino do Bairro Negro”. Até 1969, gravou sempre acompanhado por Rui Pato.
É este período que agora será alvo de evocação por vários núcleos de serviços que compõem a Biblioteca Municipal de Coimbra. A exposição vai estar patente até ao dia 8 de Setembro, de segunda a sexta-feira, entre as 09H00 e as 18H30.

Retirado do Diário "As Beiras"

Pedido II

Pede-se a quem tenha este EP (Coro da Primavera Orfeu ATEP 6571 197... ) que nos diga qual o alinhamento que consta dele. Muito obrigado.

Pedido

Pede-se a quem tenha este EP (Resineiro engraçado | Orfeu | ATEP 6357 |1968) que nos diga qual o alinhamento que consta dele. Muito obrigado.

Ouvir o disco "República" (pela primeira vez para muitos de nós!)

"República" foi gravado em Roma, em 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1975, nos Estúdios das Santini Edlzioni. Álbum de solidariedade para com o jornal República e a Reforma Agrária, editado em 1975, com interpretações de Zeca e de Francisco Fanhais, que inclui um tema inédito, Foi no Sábado Passado, escrito a propósito de uma manifestação de solidariedade com a revolução portuguesa, realizada em Roma. Os outros temas são Para não dizer que não falei de flores, do brasileiro Geraldo Vandré, Se os teus olhos se vendessem, Canta camarada, Eu hei-de ir colher macela, O pão que sobra à riqueza, Vampiros, Senhora do Almortão, Letra para um hino e Ladaínha do Arcebispo. Editado por iniciativa conjunta do Manifesto e das organizações Lotta Continua e Vanguardia Operaria, nunca foi distribuído em Portugal. O produto da venda dos discos destinava-se ao apoio da Comissão de Trabalhadores do Jornal "República" ou, caso o jornal fosse entretanto extinto, ao Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre.
Em http://www.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=Coopera (Centro de documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra) fomos encontrar este disco raríssimo de José Afonso e Francisco Fanhais que contém músicas nunca editadas em CD e que aqui temos oportunidade de ouvir pela primeira vez.


Aparece aqui com o título "Per le cooperative agricole portoghesi de José Afonso e Francisco Fanhais"

1 - Para não dizer que não falei de flores (Geraldo Vandré)
2 - Se os Teus Olhos se Vendessem (Popular)
3 - Foi no Sábado Passado (José Afonso)
4 - Canta Camarada (Popular/José Afonso)
5 - Eu Hei-de Ir Colher Marcela (Popular/ José Afonso)
6 - O Pão que Sobra à Riqueza (Quadras de José Afonso com a música "Vira de Coimbra")
7 - Os Vampiros (José Afonso)
8 - Senhora do Almortão (Popular Beira-Baixa/José Afonso)
9 - Letra para um Hino (Manuel Alegre/Francisco Fanhais)
10 - Ladaínha do Arcebispo (José Afonso)

Caricatura de autor desconhecido


Entrevista a Rui Pato

Parte de uma entrevista a Rui Pato, por Dora Loureiro, no suplemento "Olá Gente" do Diário as Beiras de sexta-feira passada. Foto de Carlos Constantino.



Acordes para "Epígrafe para a arte de furtar"


Acordes para "Carta a Miguel Djédje"

Uma barquinha para o Zeca

Vai a barquinha
vai
a menina
vai
p'lo rio a passar

cai a neblina
cai
a farinha
cai
moleira do mar.

Vai a barquinha
cai
a neblina
vai
p´lo rio a passar

vai a menina
cai
a farinha
cai
moleira do mar.

Vai a barquinha
vai
a menina
vai a barquinha
vai .

Cai a neblina
cai
a farinha
cai
moleira do mar.


Carlos Carranca 7.julho.2007

Rui Pato e José Afonso

Data - ?

Local - ?

"Revista Trá lá lá", 1998


Do fundo da arca: "Memória do canto livre" de Viale Moutinho

Memória do Canto Livre em Portugal

José Viale Moutinho Lisboa Futura 1975
Inclui um texto de Viale Moutinho, depoimentos de vários cantores, entre os quais José Afonso, e uma antologia de canções de intervenção.

José Afonso lembrado em três concertos na Festa do Avante

A festa do Avante deste ano contará com três espectáculos dedicados na íntegra à música de José Afonso.
A festa aproveita ainda para recordar Adriano Correia de Oliveira, comemorando os 65 anos do seu nascimento, e Zeca Afonso, interpretado do por Cristina Branco, Jacinta e Couple Coffee & Band.
Na Quinta da Atalaia, haverá ainda espaço para a música clássica, com o espectáculo ‘Cantata de Outubro’ do russo Prokofiev, indo ao encontro do tema central da festa, a revolução bolchevique de 1917.
Noutros campos musicais os palcos vão ser ocupados por grupos já conhecidos como os Blasted Mechanism, os Blind Zero, Brigada Vítor Jara, Peste & Sida, Sam the Kid e Sons da Fala.

A Festa do Avante! realiza-se no primeiro fim-de-semana de Setembro, nos dias 7, 8 e 9.

Os concertos terão lugar no palco 25 de Abril 6ª feira (7 de Setembro)

Cristina Branco - canta Zeca Afonso
Couple Coffe & Band "Co'as Tamanquinhas do Zeca"
Jacinta - Tributo a José Afonso

João de Freitas Branco sobre José Afonso

José Afonso tem um significado muito importante no panorama da cultura musical portuguesa. Isto, para além do valor de cada uma das suas criações, em função da comunicabilidade para com um auditório vasto e diferenciado. Um significado que tem a ver com a habitual, há muito estabelecida e felizmente em vias de ser superada, oposição entre música dita "clássica", ou "séria", e música "ligeira".

Tirante um que outro caso especial, nomeadamente a do "jazz", entendeu-se que todo e qualquer trecho de música não só portuguesa, mas europeia, tinha que ser arrumável numa das duas classes: ou na "séria" ou na "ligeira". E bem sabemos quão deplorável era, em regra, o conteúdo da segunda, com excepções, aliás, interessantes e meritórias, entre as quais avulta o exemplo de um Frederico de Freitas.
É evidente que a arte poético-musical de José Afonso não pertence, nem sequer minimamente, à esfera do ligeiro. Como tão pouco pertence essoutro caso notável de música portuguesa que é o de Carlos Paredes. O mais de salientar é que, em José Afonso, o sentido e as implicações das palavras dos poemas cantados, contribuindo embora para aquela incompatibilidade com o "ligeiro", não são factor exclusivo. O papel da música toma-se relevante, num fenómeno ao mesmo tempo unitário e dividido por dois planos.

No plano criativo, impõe-se acima de tudo o carácter português de raiz popular, isento de qualquer efeito de estilização de artificio que procurasse o afago do pior gosto musical, ou pseudomusical. É um portuguesismo autêntico que também resulta imensamente da perfeita arte de tratar a nossa língua, em termos de verdadeira música. Finalmente, no plano interpretativo, sem esquecer a inconfundível qualidade da voz, o medular sentido rítmico e a intencionalidade expressiva da articulação, gostaria de focar a peculariedade de José Afonso que talvez tenha sido, até hoje, a menos referida. A sua emissão de voz, habilmente conjugada com a tessitura estabelecida nos diferentes trechos, constitui, se não estou em erro, um dos mais actuantes ingredientes da irresistibilidade da sua mensagem de artista.
Se os encartados arrumadores de música persistirem, mesmo assim, em recusar à obra de José Afonso um lugar na categoría da música "clássica", que se apressem a rever a sua definição desta, antes que, por completo, os deixemos de tomar a sério.


Como conferencista, jornalista, ensaista, historiador, professor (e até compositor) João de Freitas Branco foi o grande educador musical de várias gerações de portugueses. Era um comunicador nato. O seu programa de divulgação na rádio, O Gosto pela Música manteve-se no ar durante 30 anos (1956-86). Fez as célebres Melomania(s) para a televisão (1976-78). Foi, durante longos anos, Presidente da Juventude Musical Portuguesa e também da Academia dos Amadores de Música. Foi o melhor director do Teatro Nacional de S. Carlos (1970-74), foi professor da Universidade Nova de Lisboa e chegou a Secretário de Estado da Cultura nos tempos iniciais (e difíceis) da democracia portuguesa. É o autor de livros importantes, nomeadamente uma História da Música Portuguesa (1959) e uma biografia de Viana da Mota (1972).

Rui Veloso interpreta "A morte saiu à rua"

O que ficou por contar depois do 25 de Abril

Neste primeiro andar da Rua da Betesga, onde tem casa o centenário Grémio Lisbonense, o fumo enovela-se nos cravos vermelhos. Em cima e em redor do palco, os figurantes ensaiam Grândola, Vila Morena. E tornam a ensaiar. Já poucos se lembram de todos os versos e da sequência da canção de José Afonso. Enquanto isso, Pedro (Gonçalo Waddington), o protagonista, volta a entrar na sala, duas, quatro, oito, muitas vezes. Não importa que a manhã vá avançada, só quando estiver tudo afinado se gritará "silêncio". "Acção." Sentado a um canto, Ivo Ferreira, o jovem realizador, parece satisfeito com o resultado ao fim de três ou quatro takes. "Cooorta! Obrigado."

Apesar de já haver muito material filmado em Lisboa, no Alentejo e no Sul de Espanha, esta é uma das cenas iniciais de Águas Mil, a segunda longa-metragem de Ivo Ferreira. A seu lado, fixo no monitor que mostra o que as câmaras vêem, está o realizador Joaquim Leitão. Vai desempenhar um curto papel. Sentada a uma mesa, a médica Isabel do Carmo também aguarda a sua deixa.

Com argumento de Ivo Ferreira, diálogos de José Maria Vieira Mendes e ajuda de Beatriz Batarda (na depuração dos guiões, casting e trabalho com os actores), Águas Mil é produzido pela Filmes do Tejo e tem um orçamento de 1,1 milhão de euros, 650 mil dos quais financiados pelo Instituto do Cinema e Audiovisual.

A sinopse pode resumir-se assim: Pedro, de 30 anos, parte para Espanha à procura do pai, Eduardo, que desapareceu quando tinha seis anos. Com algumas polaroids da época e as informações de dois camaradas (Cândido Ferreira e Juan Jesús Valverde), descobre que Eduardo foi membro de uma organização armada no pós-25 de Abril. A avó, Dona Inês (Adelaide João), vai atrás dele. Rita, a namorada (Joana Seixas), também. E Leonor, a mãe (Lídia Franco), acaba por ver-se obrigada a reconstituir essa viagem traumática.

À procura da identidade

"O maior desafio é tentar não cair em nada que seja explicativo ou lamechas", diz, durante a pausa para o almoço, o actor Gonçalo Waddington, convidado há seis meses. Ao confrontar-se com o passado do pai, Pedro, a personagem que interpreta, confronta-se com a sua identidade. "O meu pai, entretanto, morreu. Chamava-se Pedro", conta ao DN. Mas deixa claro que considera "errado" confundir afecto com criatividade.

Waddington (que protagonizou a série Até Amanhã Camaradas, dirigido por Joaquim Leitão), lamenta que entre as gerações mais jovens haja "profundo desconhecimento e desinteresse sobre o 25 de Abril". "A culpa é de todos e não é de ninguém."

Ivo Ferreira, que trabalha neste projecto desde 2001, concorda: "A geração dos meus pais não nos quis contar uma época da história." E só quebrando o "silêncio", afirma, se pode "perceber melhor o passado para viver melhor o presente".

Evitando o "discurso político" e separando as águas entre a luta armada de então e o terrorismo de hoje, o realizador diz que esta é "a história de uma geração que pergunta a outra o que aconteceu depois do 25 de Abril, confrontando-a com as vitórias e fracassos". Águas Mil "tem necessariamente um fundo político, mas é uma história de família, de amor, de morte. O pai terá fracassado na sua missão revolucionária". Este é , no fundo, um "trabalho sobre a identidade". E o seu autor gostaria de o estrear no próximo 25 de Abril.

PAULA LOBO Diário online

José Gomes Ferreira e a Música Portuguesa

Ouvi há dias algumas músicas do século XVIII português gravadas pela Fundação Gulbenkian e fiquei atónito com tanta beleza, até hoje secreta, guardada a sete chaves em arquivos de traças. Estranho país este!, de parvos, de imbecis, de analfabetos, de fanáticos, de pitosgas, de torquemadas covardes... mas em que existiram sempre, através dos séculos, meia dúzia de artistas de eleição a fazerem versos, a pintarem, a escreverem música (sim, até música!) para ninguém! Ouviram? PARA NINGUÉM!

Lisboa, 12 de Abril de 1967
in Dias Comuns II, "A Idade do Malogro"



O escritor José Gomes Ferreira (1900 - 1985) foi, na sua juventude e primeira idade adulta, um compositor de talento. Algumas das peças que compôs nas décadas de 1910 e 1920 foram, aliás, dadas a conhecer ao público de hoje em dia através de apresentações públicas nas cidades do Porto e de Lisboa por ocasião das comemorações do centenário do seu nascimento. Assim, é curioso registar este curto mas contundente testemunho. Que sirva para a reflexão tão necessária sobre o projecto cultural que pretendemos para Portugal! Só com uma mudança a nível cultural e de atitudes poderemos almejar progressos efectivos e eficazes a outros níveis. Poeta militante, hoje e sempre, estás entre nós!


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José Afonso na Feira de Sant´Iago em Setúbal

A vida em Setúbal e a actividade do autor de "Grândola, Vila Morena"

Oito painéis que retratam a vida e obra de José Afonso podem ser vistos no pavilhão da Câmara Municipal da Feira de Sant´Iago, certame que começou no sábado e termina a 5 de Agosto, nas Manteigadas.

Fotografias, excertos de uma entrevista de José Afonso a José Salvador, publicada em "O Rosto da Utopia", além de letras de várias composições do cantor, formam esta mostra, intitulada "Vários caminhos até Setúbal".

A vida em Setúbal e a actividade do autor de "Grândola, Vila Morena" no extinto Círculo Cultural estão contadas nesta mostra, que conta com a colaboração da Associação José Afonso.

Esta edição da Feira de Sant´Iago, com o tema "Setúbal de Zeca Afonso", conta com um espectáculo de homenagem ao cantor, no último dia do certame, a 5 de Agosto, com a actuação dos Terra d´Água, projecto que conta com a participação de Dulce Pontes, Filipa Pais, Maria Anadon, Lúcia Moniz e Ûxia.

Carlos Paredes: 3 anos de saudade

Sérgio Godinho dispensado pela EMI

Processo de reestruturação da editora leva a várias saídas.

Sérgio Godinho, cuja carreira discográfica teve início em 1971 com o álbum «Os Sobreviventes», foi dispensado pela EMI Music Portugal. A quebra da ligação entre o músico e a editora tem lugar num contexto de reestruturação da filial portuguesa daquela multinacional inglesa que teve início com a rescisão do contrato do administrador-executivo David Ferreira.

Ferreira, que há mais de duas décadas era o número 1 da EMI em Portugal, desligou-se da editora no passado mês de Abril. Tal como noticiado na última edição do semanário «Expresso», este processo de downsizing levou igualmente à saída de outros funcionários, tendo a EMI Music Portugal perdido para Espanha a sua autonomia administrativa e financeira.

Já durante este ano não foi também renovado o contrato que permitia à EMI distribuir o catálogo Valentim de Carvalho, onde se encontram nomes como Amália Rodrigues, algum reportório de Carlos Paredes e José Afonso e muitas gravações do chamado rock português, como o álbum «Ar de Rock» de Rui Veloso ou «Independança» dos GNR.

No que respeita aos artistas que faziam parte dos catálogos da EMI, há a registar o final da ligação com Sérgio Godinho mas também com os Mesa, Souls of Fire, Jacinta e a fadista Aldina Duarte.

João Teixeira, responsável pelo departamento de marketing, é actualmente o número 1 da EMI em Portugal.

Ecotopia em Aljezur


Linguagem e medo global por Eduardo Galeano

Na era vitoriana, as calças não podiam ser mencionadas na presença de uma senhorita.

Hoje, não fica bem dizer certas coisas na presença da opinião pública. O capitalismo ostenta o nome artístico de economia de mercado, o imperialismo chama-se globalização.

As vítimas do imperialismo chamam-se países em vias de desenvolvimento, o que é como chamar de crianças aos anões.

O oportunismo chama-se pragmatismo, a traição chama-se realismo.

Os pobres chamam-se carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos.

A expulsão das crianças pobres do sistema educativo é conhecida sob o nome de deserção escolar.

O direito do patrão a despedir o operário sem indemnização nem explicação chama-se flexibilização do mercado laboral.

A linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria.

Ao invés de ditadura militar, diz-se processo.

As torturas chamam-se pressões ilegais, ou também pressões físicas e psicológicas.

Quando os ladrões são de boa família, não são ladrões e sim cleptómanos.

O saqueio dos fundos públicos pelos políticos corruptos responde pelo nome de enriquecimento ilícito.

Chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos automóveis.

Para dizer cegos, diz-se não visuais, um negro é um homem de cor.

Onde se diz longa e penosa enfermidade deve-se ler cancro ou SIDA.

Doença repentina significa enfarte, nunca se diz morte e sim desaparecimento físico.

Tão pouco são mortos os seres humanos aniquilados nas operações militares.

Os mortos em batalha são baixas, e as de civis que a acompanham são danos colaterais.

Em 1995, aquando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: "Não me agrada essa palavra bomba, não são bombas. São artefactos que explodem".

Chamam-se "Conviver" alguns dos bandos que assassinam pessoas na Colômbia, à sombra da protecção militar.

Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade a maior prisão da ditadura uruguaia.

Chama-se Paz e Justiça o grupo paramilitar que, em 1997, metralhou pelas costas quarenta e cinco camponeses, quase todos mulheres e crianças, no momento em que rezavam numa igreja da aldeia de Acteal, em Chiapas.

O medo global

Os que trabalham têm medo de perder o trabalho.

Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho.

Quem não tem medo da fome, tem medo da comida.

Os automobilistas têm medo de caminhar e os peões têm medo de ser atropelados.

A democracia tem medo de recordar e a linguagem tem medo de dizer.

Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas.

É o tempo do medo.

Medo da mulher à violência do homem e medo do homem à mulher sem medo.

in http://resistir.info

Texto manuscrito de "Os vampiros" (1968)

Retirado do "Dossier Zeca" do Centro de Documentação 25 Abril

Novidades no "Verso dos versos"

Retirado do livro "A música tradicional na obra de José Afonso" de Mário Correia
(Poderão fazer a descarga deste livro na secção "discografia e letras" do sítio da AJA.)

CANÇÃO LONGE
Canção tradicional açoriana que começou por receber arranjo da autoria de António Portugal para uma interpretação de Luis Goes. José Afonso alterou os dois primeiros versos da segunda quadra (Quando o meu amor se foi/ Sete lenços alaguei..) e procedeu à introdução da terceira quadra.

CANTA CAMARADA CANTA
Segundo Fernando Lopes-Graça, esta canção lúdica foi recolhida em Canas de Senhorim, na Beira Baixa, com o título Vira-te pr'aqui ó Rosa, com uma só estrofe:

Vira-te pr'aqui, ó Rosa
Ó cravo já 'stou virado
É o brio dos rapazes
Usar o chapéu de lado

Ainda segundo Lopes-Graça: É um dos exemplares do nosso folclore em que a letra se nos afigura bem inferior à melodia. Na nossa versão à capella, que faz parte do repertório do Coro da Academia de Amadores de Música, substituímos a insípida letra original por quadras populares, que nos parecem corresponder mais cabalmente ao tónus heróico da melodia. José Afonso adoptou justamente esse texto, introduzindo-lhe apenas ligeiras alterações.

DEUS TE SALVE ROSA
Romance narrativo conhecido em todo o país, recolhido em Aljezur, Faro, em 1961 por Michel Giacometti, espécime incluído no Cancioneiro Popular Português sob o nº 122. José Afonso optou por uma adaptação de uma das versões de Trás-os-Montes, onde este romance pastoril é comumente designado La pastorica.

MARIA FAIA
Canção popular associada às tarefas agrícolas do trabalho da apanha da azeitona, proveniente de Malpica, na Beira Baixa.

MILHO VERDE
Cantiga da sacha, recolhida por Fernando Lopes-Graça com a designação O milho da nossa terra. Diversas foram as quadras que ao longo dos tempos foram sendo introduzidas, tal como José Afonso também o fez.

MODA DO ENTRUDO
No Cancioneiro Popular Português, Michel Giacometti refere sob o nº 34 esta canção carnavalesca com o título Lá em baixo vem o Entrudo como tendo sido recolhida em Malpica do Tejo, Castelo Branco, em 1938, por António Joyce. Em 1985, José Afonso fez incluir no álbum "Galinhas do Mato" uma variante da mesma canção.

OS BRAVOS
Canção tradicional dos Açores extremamente popular e divulgada, de um modo geral, por todos quanto se dedicaram à recriação e estilização de música da tradição oral do arquipélago.

Ó MINHA AMORA MADURA
Segundo Fernando Lopes-Graça tratar-se-á possivelmente de uma canção dançada, com uma malícia leve, eufemisticamente envolta, como tantas vezes se nos depara na nossa poética popular, numa saborosa imagética silvestre. José Afonso não cantou a segunda quadra registada por Lopes-Graça:

E o calor que ela apanhava
Debaixo da silveirinha
Ó minha amora madura
Minha amora madurinha

OH! QUE CALMA VAI CAINDO
Trata-se de uma cantiga da ceifa, recolhida por Rodney Gallop em Casegas, na Covilhã, em 1953, tendo sido incluída por Michel Giacometti no "Cancioneiro Popular português" sob o nº 81. Em relação À canção que foi fixada por Fernado Lopes-Graça na sua obra "A canção popular portuguesa", José Afonso apenas utiliza duas quadras: a primeira e a última. de referir que Fernando Lopes Graça registou este canto de trabalho sob o título Já são horas da merenda.

RESINEIRO ENGRAÇADO
Esta canção popular da Beira Baixa alcançou enorme popularidade nacional graças à interpretação de José Afonso, tendo sido mesmo um dos espécimes preferidos por um grande número de cantores popularuchos.

S. MACAIO
José Afonso serviu-se daversão que foi recolhida nos Flamengos do Faial, ilha de S. Jorge, nos Açores, por J. de Lacerda e incluída por Michel Giacometti no Cancioneiro Popular Português sob o nº 165

SAUDADINHA
Trata-se de um tema popular açoriano que foi interpretado por Edmundo de Bettencourt e Luis Goes. José Afonso acrescentou a esta canção a última quadra, a qual não constava da versão original (com arranjo de Bettencourt)

Associação José Afonso em Setúbal - Câmara Municipal aprovou texto de Protocolo

A Câmara Municipal aprovou, ontem, em reunião pública, o texto de um protocolo a celebrar com a Associação José Afonso (AJA), visando o "apoio ao desenvolvimento da actividade cultural permanente" da colectividade.


Entre o apoio conta-se a cedência, gratuita, das instalações, na Rua de Damão, em Setúbal, para sede da AJA e a colaboração na "promoção das actividades e eventos organizados" pela Associação.

A AJA, em contrapartida, compromete-se, "sem qualquer encargo para a Câmara", a participar, anualmente, em, "pelo menos, uma actividade de natureza cultural promovida" pelo Município, "desde que enquadrada com os objectivos e missão da associação".

A AJA fica, também, obrigada a disponibilizar as suas instalações à Autarquia, de "forma gratuita", "tendo em vista a promoção e realização de iniciativas de carácter formativo/informativo destinadas à comunidade, sem prejuízo das actividades" da associação.

A associação tem, igualmente, de "fazer referência ao apoio" da Câmara e inserir o logotipo da Autarquia em "todos os materiais de promoção e divulgação que venha a editar".

A AJA compromete-se, ainda, a apresentar, no início de cada ano, o Plano de Actividades e o Orçamento Anual e, até 31 de Janeiro, o Relatório de Contas referente ao ano anterior.

"Escritas do Maio" já à venda!

"Escritas do Maio" | Miguel Gouveia

Trata-se de uma obra que resulta da colaboração entre a editora Profedições e a Associação José Afonso. Uma unidade didáctica que, centrada na pessoa e na obra de José Afonso, apresenta propostas de trabalho não só na área da língua portuguesa mas em outros aspectos da educação e formação dos alunos. Indispensável aos educadores sociais e professores.

Preço - 14 Euros

Adquira já o seu através da AJA!
265. 185 580

Acordes para a "Balada do sino"


Acordes para "Altos Castelos"


Sérgio Godinho - 55 Canções - Partituras, Letras e Cifras "Assírio e Alvim"

Sinopse
«Foi há tantos anos que ainda me lembro: adolescente, eram livros como este que me levaram a experimentar as primeiras (e rudimentares) formas de escrita; e, desde aí, nunca me têm largado. Ou seja, tenho-os à mão e eles têm-me à perna. O acesso prático aos mecanismos que outros usaram para criar (ou criaram para usar) nunca deixou de me trazer luzes e dicas importantes, neste ofício intermitente da feitura de canções. Imitamos, transformamos, inventamos, emperramos e solucionamos, mas nunca a partir do nada — há sempre, num ponto de partida, de percurso ou de chegada, o que nos foi sugerido por outros saberes. Com livro ou sem livro. Mas é destes manuais que falamos: sabemos como em Portugal, são ainda, infelizmente, aves raras. Começam agora algumas a pousar, e serão cada vez mais bem-vindas. Que prenda para todos que praticam estas coisas, ter um dia acesso a toda a música portuguesa (enfim, não exageremos) neste formato, ou formatos afins. Estatisticamente, o meu contributo passaria a ser muito menor, e eu com isso no maior contentamento.»
Sérgio Godinho

Cheira ao medo do "antigamente"...

O actual governo, presidido por Sócrates, é violento. Não como outros que o foram antes. Quem não recorda, por exemplo, a violência cavaquista patente, pelo menos, em dois momentos inesquecíveis em que colocou na rua a polícia para reprimir manifestantes: uma vez, no tão célebre quanto triste episódio dos “secos” e “molhados” em que a polícia carregou sobre a polícia; outra vez foi a repressão na Ponte 25 de Abril contra quem contestava o aumento das portagens.

Era a violência física usada para que não restassem dúvidas sobre o poder de quem o detinha. Uma violência que, dada a visibilidade, chamava outros ao protesto nem que fosse para contestarem a própria violência. Contestar, na altura, custaria, quanto muito, o susto de ter de fugir à polícia, mas, para isso, bastava um pouco de argúcia e alguma preparação física.

Hoje é diferente. A polícia não actua da mesma forma. Mostra-se ao longe, identifica (de preferência sem dar muito nas vistas), anda à paisana e usa câmaras de filmar. Porém, embora a polícia se mostre menos, a violência existe talvez mais perversa, pois não deixa nódoas negras na pele. É a outra violência, a que sem deixar marcas exteriores ainda dói mais, aquela que semeia o medo e, dessa forma, contribui para que atinja os seus objectivos quem dela se serve.

Casos com o da DREN/Charrua, o da ex-delegada de saúde de Vieira do Minho, o do autor do blogue Portugal Profundo, as ameaças aos potenciais aderentes à Greve Geral ou o fortíssimo ataque que está a ser movido ao movimento sindical e aos seus dirigentes são sintomáticos do tipo de violência que procura instalar-se e que contribui para a generalização do sentimento de medo.

É o medo de falar, de dar a cara, de denunciar publicamente, de dizer as verdades, de protestar, até de comentar criticamente nem que seja à mesa do café. Sim, porque agora há, de novo, os bufos. E os bufos podem estar na mesa do lado, na secretária em frente, na esquina da rua… bufam para se prestigiarem diante do poder e, talvez assim, garantirem um bom futuro, apesar da sua mediocridade. E é neste caldo de cultura que vai crescendo o medo. O medo do processo disciplinar, do sinal vermelho no registo biográfico, do traço azul no texto, do esfumar da progressão na carreira, de perder o emprego e, assim, a casa, o carro, o futuro dos filhos…

Sócrates há dias, com o seu ar presunçoso, sorria junto de quem o contestava e, para as câmaras da televisão, informava o país de que era um “político democrático”, não fosse o país ter disso dúvidas. Mas será democrático o líder de um governo que fez regressar ao país a intolerância política, o delito de opinião, a violência que semeia o medo?!

Evitar que o medo se instale de vez é exigência que se coloca a todos os que acreditam nos valores democráticos. Nestas circunstâncias, lutar contra o medo não é só um direito que nos assiste, é um dever que se impõe a todos nós. É necessário que, sem medo, enxotemos os ditadorzecos que certas conjunturas promovem. Políticos que, ilegitimamente, abusam do poder que legitimamente conquistaram. São os salazarentos deste início de século XXI, sapato de verniz em vez de botas, que nem marcelentos merecem ser considerados.

Desconheço se um dia cairão de alguma cadeira, mas do poder tombarão sem glória, pois apenas os heróis são glorificados pelo povo. Quem ataca e fere os que menos têm e menos podem, jamais merecerá glória. Desses, o povo costuma dizer que “Deus nos livre deles!”, mas depois é o próprio povo que perde a paciência de esperar a intervenção divina e deles se livra. Estou convencido que será assim de novo…


Mário Nogueira
Professor, Coordenador do SPRC e Secretário-Geral da FENPROF

A AJA estará presente no 8º Festival Intercéltico de Sendim

A poesia não musicada de José Afonso

"O poeta José Afonso que vive na sombra de Zeca Afonso, cantor político"Elfried Engelmayer.

De forma a demonstrar este facto e de forma a balançar cada vez mais as duas facetas, demos lugar no sítio da AJA à poesia não musicada de José Afonso. Com a regularidade possível iremos mudando os poemas.


Tu morres todos os dias

Tu morres todos os dias
libertando telefonemas
diante da minha mágoa
exposta à ira dos dias
levo-te cravos vermelhos
flores recentes da estação
Morres e vais caminhando
sobre uma estrada de fumo
o lume que nos sustenta
Já não cheira não tem vida
Às vezes vens-me à lembrança
descalça ao longo da praia
Vivo terrores de madraço
Com dívidas acumuladas
Seguindo de perto o tráfego
Saberei um dia amar-te
Tu morres tu pontificas
eu respiro a tua sombra
Ai repouso do guerreiro
Sobre o abismo repousas

Azeitão, 31 de Março de 1981.

É já esta 6ª feira! Apareçam.

Fórum AJA - Take 523

Vamos ver se é desta!
Depois de algumas tentativas a tentar criar um fórum para a AJA sem publicidade indesejada, parece que finalmente acertámos... veremos se este dura.
No entanto, se houver alguma alma que nos queira elucidar como criar uma base de dados Mysql e como criar um fórum phpBB ficaremos eternamente gratos.

A cronologia de José Afonso foi adicionada à secção 'biografia' da página da AJA

1929 - Nasce em Aveiro, no dia 2 de Agosto, José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos.

1930 – Os pais ausentam-se para Angola. José Afonso permanece em Aveiro, por razões de saúde, confiado a uns tios.

1933 – Por exigência da mãe, com três anos e meio é enviado para Angola, onde o pai é procurador da República.

1933/36 - Permance em Angola, onde inicia os estudos da instrução primária.

1936 - Regressa a Aveiro, para casa de umas tias. "Aos sete anos volto para a Europa, para Aveiro, é a escola primária. Foi violentamente traumatizante: o professor pendurava-me pelas orelhas porque eu era distraído".

1937 - "Aos oito anos regresso a África. Agora é Moçambique, não é Angola. Pouco tempo ali estou mas é de novo o paraíso. Somos eu, o meu irmão, a minha irmã... Também nesse tempo vamos com a família à África do Sul e vemos as feras em liberdade... Eu sonhava nunca mais abandonar aquela terra."

1938 - Vai para Belmonte, para casa do tio Filomeno que era Presidente da Câmara. Aí conclui a quarta classe. O tio fá-lo envergar a farda da Mocidade portuguesa. "Uma terra horrível. Um período fechado. Privado de contactos. Eu não podia sequer dar-me com os meninos da vila. Fiz ali a 4ª classe".

1940 - Entra para o Liceu D. João III, em Coimbra. Vai morar para casa de uma tia. " O ambiente era muito conservador: mulheres de escapulário ao pescoço Proibições...". A família parte de Moçambique para Timor, onde o pai vai exercer as funções de juiz. Mariazinha vai com eles, enquanto o seu irmão João vem para Portugal. Com a ocupação de Timor pelos japoneses, José Afonso fica sem notícias dos pais durante três anos, até ao final da 2ª guerra mundial, em 1945.

1945 – Começa a cantar serenatas como “bicho”, designação da praxe de Coimbra para os estudantes liceais. Vida de boémia e fados tradicionais de Coimbra.

1946/1948 – Completa o curso dos liceus, após dois chumbos. Entretanto, conhece Maria Amália, com quem vem a casar. Viagens com o Orfeão e com a Tuna Académica.

1949 - Matricula-se no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras de Coimbra. Vai a Angola e Moçambique integrado numa comitiva do Orefeão Académico.

1953 - Grava os seus dois primeiros discos de fado de Coimbra, em 78 rotações.
Nasce o seu primeiro filho José Manuel, fruto do seu casamento com Maria Amália de Oliveira

1953/1955 - Em Mafra cumpre o serviço militar obrigatório. Depois é colocado num quartel em Coimbra. Grandes dificuldades para sustentar a família, como refere em carta enviada aos pai em Moçambique. A crise conjugal é muito sentida. Após o serviço militar, já com dois filhos, José Manuel e Helena, tenta concluir o curso

1955/56 – Começa a dar aulas em Mangualde. Inicia-se o processo de separação e posteriormente divórcio de Amália.

1956/57 – Professor em Aljustrel e Lagos

1958 – Já é professor em Faro, quando vem a Coimbra gravar o seu primeiro disco “Baladas de Coimbra/Menino d’oiro”, um single acompanhado à viola por Rui Pato. Em dificuldades económicas, envia os dois filhos para Moçambique, para junto dos avós. Neste ano fica impressionado com a campanha eleitoral de Humberto Delgado.

1959 – Começa a frequentar colectividades e a cantar regularmente em meios populares.

1960 – Edita o EP “Balada de outono”

1961/62 – Segue atentamente a crise estudantil deste último ano. Convive em Faro com Luiza Neto Jorge, António Barahona, Ramos Rosa e namora com Zélia, que será sua segunda mulher. Edita os Eps “Coimbra e “Baladas de Coimbra”

1961/ 62 - No Algarve conhece Zélia, a sua segunda mulher e com quem viria a ter dois filhos, Joana e Pedro

1963 - Grava "Os Vampiros".
Termina o curso com uma tese sobre Jean- Paul Sartre, "Implicações substancialistas na filosofia sartriana", na qual obtém onze valores.
Até 1964, manteve sempre ligação à vida académica coimbrã. Participa em várias digressões da Tuna e do Orfeão Académico. Continua na faculdade como estudante voluntário.

1964 - Vai para Moçambique ao encontro dos pais e dos seus dois filhos, na companhia de Zélia. Dá aulas em Lourenço Marques e na Beira. Aqui musicou Brecht. Em Moçambique nasce a sua filha Joana.

1967 – Desembarca em Lisboa esgotado pelo sistema colonial. Deixa o filho mais velho, José Manuel, confiado aos avós em Moçambique. Colocado como professor em Setúbal sofre uma grave crise de saúde que o leva a ser internado em Belas. Quando sai da clínica, tinha sido expulso do ensino oficial. Neste ano é publicado o LP “Baladas e canções”, onde se reúnem temas de EP’s anteriores. É publicado o livro “Cantares de José Afonso” pela Nova Realidade.

1968 – Expulso do ensino, dedica-se a dar explicações e a cantar com mais assiduidade nas colectividades da margem Sul, onde é nítida a influência do PCP. Grava para a Orfeu o LP "Cantares do Andarilho".

1969 – A Primavera Marcelista abre perspectivas ao moviemnto sindical. José Afonso participa activamente neste movimento, assim como nas acções dos estudantes em Coimbra. Lança o LP "Contos Velhos Novos Rumos" e edita o single “Menina dos olhos tristes”, que contém a canção popular “Canta Camarada”

1970 - Grava em Londres "Traz outro amigo também". Rui Pato impedido de sair de Portugal é substituido na viola por Carlos Correia (Boris).
1971 - Num dos estúdios mais caros da Europa, os de Herouville, em Paris, é feita a gravação de "Cantigas do Maio". Cabe a José Mário Branco, exilado em França, os arranjos e a direcção musical do disco. A editora Nova Realidade publica o livro “Cantar de novo”.

1972- Madrid é o local escolhido para gravar "Eu vou ser como a toupeira". É editado o livro “José Afonso” pela editora Paisagem.

1973 - Está vinte dias preso em Caxias, onde escreve entre outros textos “Era um redondo vocábulo”. Pelo Natal publica o disco "Venham Mais Cinco" gravado em Paris, de novo sob a direcção de José Mário Branco. Foi o último disco de José Afonso antes da revolução de Abril.

1974 - No dia 24 de Março José Afonso participa no I Encontro da Canção Portuguesa, em Lisboa. Debaixo do olhar atento da PIDE, passaram pelo palco do Coliseu alguns dos nomes mais sonantes do canto de intervenção, como Adriano Correia de Oliveira, José Barata Moura, Fernando Tordo, José Carlos Ary dos Santos, Fausto, Vitorino.
No dia 25 de Abril é derrubado o regime fascista de Marcelo Caetano, pelo Movimento das Forças Armadas. Grândola Vila Morena , do disco "Cantigas do Maio", é escolhida como senha para o arranque do movimento, passando na madrugada de 25 na Rádio Renascença. Sai o disco "Coro dos Tribunais", com arranjos de Fausto.

1975 - Lança o single "Viva o Poder Popular", em colaboração com a LUAR.

1976 - Grava o LP "Com as minhas Tamanquinhas". Segundo José Niza, este disco representa "uma espécie de repositório e balanço das experiências vividas e recentes". É a ressaca do PREC. Apoia a candidatura de Otelo Saraiva de Carvalho à presidência.

1977 – Não há disco.

1978 - É o ano de "Enquanto há força", novamente dirigido por Fausto. Este LP conta com a participação de numerosos músicos e cantores portugueses.

1979- Vai viver para Azeitão. Sai "Fura, Fura", com arranjos de José Afonso e Júlio Pereira. Deste disco, oito faixas são temas para as peças de teatro "José do Telhado" (A Barraca, 1978) e "Guerras do Alecrim e Manjerona" (A Comuna, 1979)

1981 - Grava o último disco para a Orfeu. Chama-se "Fados de Coimbra e outras canções". Dedica-o a Edmundo Bettencourt e a seu pai. Começam-se a conhecer sintomas da doença do cantor.

1983 - A 29 de Janeiro dá um espectáculo no Coliseu dos Recreios, para uma sala completamente cheia. Do espectáculo resultará o disco "José Afonso ao vivo no Coliseu". Grava "Como se Fora seu Filho". Recusa a Ordem da Liberdade.
É publicado o livro “Textos e canções” pela Assírio e Alvim

1984 – A doença agrava-se. ”Livra-te do medo, estórias e andanças de Zeca Afonso” de José Salvador, é publicado pela Regra do Jogo.

1985 - Sai o seu último álbum, "Galinhas do Mato" com arranjos musicais de Júlio Pereira e Fausto. José Afonso só canta algumas faixas, devido ao seu estado de saúde estar prejudicado pela doença de que sofre, uma esclerose lateral amiotrófica.

1987 - José Afonso morre na madrugada do dia 23 de Fevereiro, no Hospital de Setúbal.

"Chula da Póvoa" e "Nossa Senhora da Guia" seguido de testemunho de Benedicto Garcia Villar



Os gaiteiros Treixadura intrepretam um tema tradicional Galego. Os gaiteiros de Lisboa interpretam um tema tradicional Português. O que se vê é uma mostra da cultura comum entre galegos e portugueses...





Testemunho de Benedicto Garcia Villar

No verão do 73 fomos á Illa da Fuzeta para estrear umas tendas de campismo que compráramos em "Trigano" numa viagem a França e Bélgica, á que viera o Zeca e o meu camarada Bibiano.
A estrea foi por tudo o alto e a ela asistiron o Zeca e a Zèlia, os miúdos, Pedro e Joana e nós, Maite e eu. A do Zeca, familiar, com vários quartos, já se adivinhava de lonje que não ía ser morada do seu dono que na altura andava lixado coa súa perenne insomnia. Nós, os galegos, ficamos naquela tenda máis pequena que para dois era de máis. Aliás, e único que había a fazer naquela illa despovoada (a penas ían pessoas e non había nem "vaporetto" nem nada parecido e assim as viajems ao "continente" eram a "brazo", a vogar co remo) era poñer o coiro, tudo o coiro, ao sol, para escándalo, é verdade, de algúms. Si había dúas Zeca e família cada día para tomar aquela marabilla de sardinhas grelhadas. Não tenho a certeza de se são as melhores as de além ou as de Rianxo, na ría de Arousa, ou as de Safi, no atlántico marroquino, onde as tomamos no ano 2000 numa viajem que fizemos coa Zèlia e onde há muitos portugueses a travalhar, entre eles um tío da Zèlia que era a quem íamos em particular a visitar naquele porto tão cheio de color e alegría. Isto deve ser aplicável a casi tudos os portos, hajo eu, de jeito que não estou a descuvrir nada novo, pero dado que pasávamos pelo sabor das sardinhas...
segundo as súas fontes, era cantada nas celebrações nas dúas beiras do Minho, no norte galego e no sul portugués. A canção, simples de composição, tinha tres quadras:

Nosa Senhora da Guía
Guía aos homens do mare
Venha ver a barca vela
Que se vai deitar no mare
Nosa Senhora vai dentro
Os anjinhos a remare

A partir desse momento a canção, tal e como estava, foi incluída por nós nos espectáculos que sempre realizávamos acompanhándonos mutuamente para, com máis ou menos fortuna, sumar dúas violas e, sobre de tudo, dúas vozes, pois os dois éramos moito dados a fazer dúos. Sempre era eu quem aprendía alguma nova forma de impostar, de flexionar a voz, de construir as segundas vozes á "alentejana" ou como fosse. É a vantagem de compartir com um génio: um sempre receve muito, muito, muito...

A partir do 25 de avril, não voltamos a ter esta espécie de parelha (o seu lugar sería ocupado pelo Bibiano ata o 78). Aínda que sempre mantivemos, até o fim dos seus días, a mesma cordialidade, o "guião" que tinhamos que interpretar foi outro bem diferente. Em tanto que, em Portugal, as liberdades inundavan as rúas e o Zeca tinha que dedicarse a canalizar tuda aquela energía desbordante que o mantinha em constante "bebedeira" intelectual, artística, política e humana, em Espanha aínda tardaríam em chegar: em fevereiro do 77 aínda eram prohibidos espectáculos.
No mes de maio desse ano gravei o meu primeiro L.P.: "Pola Unión" e nele havía uma canção intitulada "Nosa Señora da Guía":

Nosa Senhora da Guía
Guía ós homes do mare
Veña ver a barca vela
Que se vai deitar no mare
Nosa Señora vai dentro
E os anxiños a remare
En Ourense as gueivotas
Non saben o que é voare
Os mariñeiros traballan
No mare da liberdade
Outros pesqueiros reventan
Prós señores engordare
Hai un caravel vermello
No fusil do militare
Quen non viu cantar un vello
Non sabe o que é cantare

Coa emoção própria do neófito (e eu éra-o pois a penas gravara um e.p. de 4 canções no 68 em Barcelona) dinlhe ao Zeca o disco e ele fez o próprio e trocou-o por um dele. Neste dico estava "Chula da Póvoa" a súa versão, máis portuguesa, com uma irmá no meu disco, máis galega.
Á "Nosa Señora da Guía" aconteceulhe o melhor que lhe pode acontecer a uma canção: sem saver a súa origem, sem saver sequera quem a gravou, agúms, moços e não tão moços cántana pelas rúas...
Nesta página-e pódese ouvir um bocadinho:

http://www.ghastaspista.com/historia/polaunion.php

Mercedes Sosa interpretando "Gracias a la vida"

"Gracias a la vida" Violeta Parra

Depois de Guthrie, Seeger, Dylan, Yupanqui e Jara aqui fica mais um nome para a nossa viagem pelos cantores mais marcantes das Américas.



Mais sobre Violeta Parra - http://www.violetaparra.scd.cl

Dos muitos filhos grados | José Afonso

Dos muitos filhos grados
que tiveste
nem um se lembra
da velha casa térrea
onde concebeste sem pecado
e estragaste os teus dias
entre a corda da roupa
a cozinha e o homem
Amanhã sem aviso
apanhas um eléctrico
mudas de roupa
acompanhas
o trajecto dos astros
De repente
é o arco-íris em volta
o guarda-freio a volúpia
a rua o beiral
duma grande família

Não voltes


Tal como Elfried Engelmayer nos vem avisando desde há muito tempo, temos que fazer mais pelo "poeta José Afonso que vive na sombra de Zeca Afonso, cantor político". Colocá-lo nos livros escolares, colectâneas de poesia contemporânea, organizar colóquios sobre a sua poesia musicada e não musicada, surpreender em todos os momentos possíveis com textos ainda desconhecidos e incrivelmente belos como este acima publicado. Para mais poemas podem aceder à secção "poesia" no site da AJA. Cá esperamos pelas vossas sugestões.

As Faltriqueira interpretam "As sete mulheres do Minho"

Quadras de José Afonso

Nestas quadras vão notícias
P’ra quem está mal informado
Dá-me o tom desta cantiga
Quero estar bem preparado

Nestas quadras vão notícias
P’ra quem está mal informado
Dá-me o tom desta cantiga
Quero estar bem preparado

Quero estar bem preparado
O Sol e Dó bate fino
Quando o compasso é folgado
Entra melhor no ouvido

Os ricos mentem ao povo
Com artes de feiticeiro
Dizem que são pela Pátria
Mas só pensam no dinheiro

Hoje os tempos estão mudados
Mal vai para quem trabalha
Sai das tuas tamanquinhas
E luta contra o canalha

Sobem as rendas de casa
A habitação é um luxo
Mas há quem tenha palácio
Piscina, parque e repuxo.

Foi dar a Lisboa um Pinto
Habitar um aviário
Fizeram dele ministro
Mas não passa dum falsário

Nunca vi na minha vida
De uniforme ou à paisana
Um guarda republicana
Bater num capitalista

Tu chamaste-me comuna
Pensando que me ofendias
Com esse nome viveu
Paris os seus melhores dias

Haja ganas com fartura
P’ra levantar o país
Quando o mal não tem remédio
Corta-se o mal pela raiz

Mineiros da nossa terra
Abrindo covas no fundo
Pescadores lá do mar alto
Que deram lições ao mundo

Muita gente prevenida
Grita e berra que se farta
Antes que seja crescida
Há que matar a lagarta

Cãezinhos de pelo fino
Pela trela passeando
São os últimos suspiros
Que a Europa nos está mandando

Hoje há Sandras e Patrícias
Sinal dos tempos que vão
Acabaram-se as Marias
Tudo vem da imitação

Sónias, Mónicas, Sofias
E Carlas ao desbarato
Ninguém quer um fato próprio
Tudo quer mudar de fato

Algarve, o que vejo agora?
Fazem de ti capoeira
Para pedires uma bica
Falas em língua estrangeira

Vida cara, vida cara
Onde irá isto parar?
Pergunta a dona de casa
Sem ter com que se amanhar

É já miséria doirada
Ver comida boa e farta
E pagar uma fortuna
Por um quilo de batata

É já miséria revolta
Ver a loiça sobre a mesa
Quem fez o cabaz da fome,
Rouba, rouba concerteza

Tudo são palavras mansas
Tudo são palavras caras
Avança, meu povo, avança
Avança que já não páras

Há de tudo nesta feira
Juncada de rosmaninho
Menina, toma cautela
Que andam chulos p’lo caminho

Na sociedade marcada
O sistema é que não presta
E p’ra manter a fachada
Há sempre um tambor da festa

Tenho debaixo da língua
O princípio duma trova
Hei-de encontrar uma rima
Dedicada à gente nova

A velhice não se enjeita
Como o lixo da calçada
País que os velhos rejeita
Não é país, não é nada

Numa escola de Setúbal
Ficou surda uma menina
Tanta pancada lhe dera
A professora malina

Discursos, festas, colóquios
Não chegam (nem caridade)
O melhor são as crianças
Disse o poeta, e é verdade

Seja cada dia um ano
Que um ano não dá p’ra mais:
Colóquios, festas, sorrisos,
Missas internacionais

Faz aqui falta uma trova
Duma criança oprimida;
Ela que fale da fome,
Ela que fale da vida

Ela que fale da pomba
Que tem a asa ferida;
Ela que fale da nuvem
Que encobre a terra poluída

Veio uma carta de longe
Dum amigo de Bragança
Que fugiu daqui a salto
E hoje vive na França

Diz que trabalha na “chaine”
Como uma besta de carga
E que não foi de vontade
Que deixou a pátria amada

Mandou o filho à escola
Onde só fala francês
Quando as saudades apertam
Diz que vai voltar de vez

Mas sabe que o desemprego
É um inimigo real
E assim se vai conformando
Longe da terra natal

O emigra erga a mola
Num país que não é seu
Produz fortunas alheias
Com as mãos que Deus lhe deu

Disse-me um dia um careca
Quando uma cobra tem sede
Corta-lhe logo a cabeça
Encosta-a bem à parede

Quando uma lancha se afunda
Nunca a culpa é do patrão
É sempre de quem se amola
Lá no fundo do porão

Esta terra será nossa
Quando houver revolução

Desenho de António Pimentel

Desenho que foi usado para o LP "Baladas e Canções"

Cartaz no metro de Paris anunciando concerto de José Afonso no Theatre de la ville em 1981


Texto sobre o concerto "Zeca Jazz" na Casa da Música no Porto a 29.4.07

Foi durante o concerto Zeca Jazz, na Casa da Música que apaziguei o meu coração com a Maria João. Penso que o piano do Mário Laginha muito contribuiu para o lento tecer dessa empatia que os presentes foram sentido.

O apaziguamento (estético e musical) com a Maria João empurrou-me para aqueles momentos em que sentimos ser necessário pensar. Pensar de forma abrangente e completa, mais uma necessidade do que um capricho. Pensar apenas e não recear os contornos e as fronteiras desses pensamentos.

E o meu coração, nesses pensamentos, divorciou-se do espectáculo e concentrou-se no que sobrou daquela reunião de pessoas, do seu mote mas principalmente das que o não puderam fazer.

Os pensamentos rapidamente fluíram para o efémero do concerto, para o envelhecimento dos espectadores e para o repetir do gesto, de uma crença talvez, que o Zeca ainda exista entre nós.
Por fim, fluíram para um vazio... o de todos os que não pensaram no Zeca.

No meu bairro, que existe próximo de outro bairro designado de habitação social, que deve significar que são parte da sociedade (o que me deixa mais tranquilo e menos sozinho), a média de idades é elevada. Brinco muitas vezes quando digo que sempre que adoeço ou que tenho um ar esbaforido, que a minha vizinha, com a sua forma mais sincera de o ser, me oferece a sua única sopa e o tabuleiro com o almoço, ou a sageza nas palavras: “é para não ter de cozinhar...”.

O mesmo se passará no outro bairro (espero), mas esse é um bairro esquecido. Minto, são as pessoas que se podem esquecer – os bairros pintam-se e renovam-se. São as pessoas que nele habitam, os meus heróis. É na sua luta diária, nos seus encontros e na forma como ainda resistem a uma democracia feliz, arrastando consigo o saber único de viver com pouco e de ainda sonhar (nem que seja ao domingo e com uma bola) e de viver uma utopia mesmo sem saber o que a utopia no dicionário significa.

Esta a dicotomia não se transforma em dialéctica porque os meus heróis não podem ir ao concerto e o concerto também os ignora. Leva-me o pensamento uma vez mais a questionar o meu papel, por ténue que seja, nesta associação. Realmente não pretendo continuar a participar em concertos de 15€ para um grupo restrito e previsível.

O concerto em que quero participar talvez não seja um concerto. Ou por outras palavras, deverá ser uma expressão de arte, e por isso poderá ser um concerto. Mas não poderá ser a mesa de “debate dos mesmos”, com os temas do costume e com o nosso abrandamento endógeno de quem acha que trinta anos envelhecem uma revolução.

Será para isto que a AJA existe? Protagonizando um caminho da memória que é também o caminho do esquecimento? Como ganhar novos elementos e simultaneamente promover difusão cultural da música do Zeca?

Julgo que não será a 15€ na Casa da Música. Essa é a minha certeza e a certeza do bairro vizinho do meu que mesmo que tivessem os 15€ (que são do futebol), seriam duplamente excluídos, ora por lhes faltar o valor do outro jogo ora por realmente os excluirmos mesmo que estivessem ao nosso lado.

Essa é a indignação, o paradoxo que corrompe a memória do Zeca. A associação não se indigna, não se revolta, não se inconforma e não orienta a sua capacidade para essa indignação.

A associação, neste contexto, não perpetua Zeca porque não é capaz de se indignar com os 15€ que o bairro vizinho não pode pagar. Esta associação é um luxo dos tempos modernos e os seus membros adormeceram no conforto das cadeiras da Casa da Música, da mesma forma que o olhar do outro bairro adormece na ternura de uma bola.

Esta associação deveria despir-se de membros e procurar-se nos heróis do Vale do Ave (e de outros lugares), deveria juntar a indignação do Zeca, das suas músicas, à indignação de se ver obrigado a pensar que a utopia deva ser algo parecido com um emprego.

É aí que estão os membros da AJA. Podem é não ter 15€ nem se sentirem bem na Casa da Música como eu, que os tenho, também não me senti quando pensei no papel que representei.

Abílio Magalhães

"Ó vila de Olhão" adicionada ao rádio da AJA

O tema "Ó vila de Olhão" foi adicionado ao rádio da AJA.
Oportunidade de ouvir uma música desconhecida para muitos que somente foi gravada em CD há uns meses atrás numa colecção do jornal "Público". Na viola, Rui Pato.

Concerto na Galiza homenageando José Afonso

Concerto do grupo "De outra margem" celebrando José Afonso em Chapela (perto de Vigo) no dia 20 de Julho, pelas 22 horas, na praia de Arealonga (Chapela-Redondela).

Debate sobre José Afonso na Feira do livro de Ermesinde | 11.7.07

Debate moderado por Carlos Faria, Presidente da "AGORarte" que teve a participação
de Manuel Pereira Cardoso, Paulo Esperança (AJA) e José António Gomes.



Feira de Sant'iago em Setúbal tem como tema central "Setúbal de Zeca Afonso"

A edição deste ano da Feira de Sant´Iago, com um orçamento global de 480 mil euros, tem como tema central "Setúbal de Zeca Afonso", e conta com cerca de 250 expositores.

O aumento da área asfaltada do recinto e do estacionamento da Feira de Sant´Iago são dois dos melhoramentos com que arranca, no dia 21, nas Manteigadas, mais uma edição do certame.

A melhoria das condições do Parque de Sant´Iago foi apresentada hoje, à tarde, por André Martins, vereador do Turismo, que, juntamente com a comunicação social, fez um pequeno périplo pelo recinto.

Após uma intervenção realizada pelos meios humanos e técnicos da Câmara Municipal, mais de dois terços da área de exposição do certame fica asfaltada, criando-se, assim, melhores condições para os visitantes da Feira que se prolonga até dia 5 de Agosto.

O estacionamento fica, também, com melhores condições no que respeita a questões relacionadas com o ordenamento e a segurança e com uma área mais alargada, passando a dispor de uma oferta de cerca de 750 lugares, número que sobe para os três mil, se se considerar os parqueamentos disponíveis nas imediações e a rotatividade de viaturas em cada espaço.

"Esta é uma das razões porque a Feira veio para este local", sublinhou André Martins, referindo-se à facilidade e rapidez que os visitantes têm agora em aceder ao certame, contrariamente ao que se passava.

O controlo do estacionamento é feito pelos Bombeiros Voluntários de Setúbal, garantindo-se, assim, a maximização da utilização do parque e da segurança dos seus utentes. O estacionamento está sujeito ao pagamento de um euro, valor que reverte na totalidade para aquela corporação de bombeiros.

A Feira de Sant´Iago conta, também, com outras infraestruturas e serviços de apoio como um posto de primeiros socorros - instalado em colaboração com a Cruz Vermelha, bombeiros sapadores e voluntários -, segurança privada com vídeo vigilância, um posto fixo da GNR e elementos desta força de segurança dentro e fora do recinto, dois ATM - caixas Multibanco -, e wc´s, incluindo para deficientes.

A edição deste ano, com um orçamento global de 480 mil euros, tem como tema central "Setúbal de Zeca Afonso", e conta com cerca de 250 expositores.

Para o controle dos mosquitos, foi feita a limpeza da vala Real que atravessa o recinto e está previsto um conjunto de 15 intervenções de desinsectização de prevenção - já iniciado - e acções extraordinárias a realizar, de acordo com as necessidades, durante o evento e nas zonas mais problemáticas.

Paralelamente, e em conjunto com o Instituto Nacional Dr. Ricardo Jorge - Centro de Estudos e Vectores de Doenças Infecciosas, será elaborado um folheto informativo sobre a problemática dos mosquitos, no qual são apresentadas as intervenções previstas pela Autarquia, a identificação das espécies de insectos e um conjunto de recomendações a seguir para diminuir os efeitos da acção destes animais.

No que respeita à circulação automóvel nas imediações do recinto, os acessos à Cooperativa das Manteigadas e ruas anexas vão estar bloqueados, excepto a moradores. Esta acção é realizada em colaboração com a direcção daquela Cooperativa, moradores e Bombeiros Voluntários de Setúbal.

O estacionamento nos passeios públicos da Avenida António Sérgio, junto do recinto da Feira, vai estar interdito de forma a garantir a circulação em segurança dos peões.

Um serviço de apoio especial a pessoas com mobilidade reduzida está, também, disponível, devendo os interessados fazer a sua reserva entre os dias 21 de Julho e 5 de Agosto, das 10h00 às 19h00, através do telefone 919 521 464. O transporte, destinado a pessoas em cadeiras de rodas ou com deficiência motora, é efectuado entre as 10h00 e as 01h00 e a sua marcação está dependente da lotação do veículo.

Este serviço para pessoas com mobilidade reduzida, limitado à área do concelho de Setúbal, é prestado no âmbito de um protocolo celebrado entre a APPACDM e a Câmara Municipal.

Paralelamente ao certame decorrem outras actividades (ver programa) como provas de atletismo e ciclismo.

O grupo Aja força actuando em Ermesinde | 11.7.07


Num magnífico cenário ao ar livre, Ermesinde, 11 de Julho de 2007
Organização: AGORArte

Protocolo entre a AJA e a Câmara Municipal de Setúbal

Associação José Afonso em Setúbal
Câmara Municipal aprovou texto de Protocolo

A Câmara Municipal aprovou, ontem, em reunião pública, o texto de um protocolo a celebrar com a Associação José Afonso (AJA), visando o "apoio ao desenvolvimento da actividade cultural permanente" da colectividade.

Entre o apoio conta-se a cedência, gratuita, das instalações, na Rua de Damão, em Setúbal, para sede da AJA e a colaboração na "promoção das actividades e eventos organizados" pela Associação.

A AJA, em contrapartida, compromete-se, "sem qualquer encargo para a Câmara", a participar, anualmente, em, "pelo menos, uma actividade de natureza cultural promovida" pelo Município, "desde que enquadrada com os objectivos e missão da associação".

A AJA fica, também, obrigada a disponibilizar as suas instalações à Autarquia, de "forma gratuita", "tendo em vista a promoção e realização de iniciativas de carácter formativo/informativo destinadas à comunidade, sem prejuízo das actividades" da associação.

A associação tem, igualmente, de "fazer referência ao apoio" da Câmara e inserir o logotipo da Autarquia em "todos os materiais de promoção e divulgação que venha a editar".

A AJA compromete-se, ainda, a apresentar, no início de cada ano, o Plano de Actividades e o Orçamento Anual e, até 31 de Janeiro, o Relatório de Contas referente ao ano anterior.

Notícia retirada de Rostos

Galeria virtual da censura

Ofício da câmara Municipal de Angra do Heroísmo, no qual são dadas informações sobre um concerto de Adriano Correira de Oliveira e José Afonso que acabou por não se realizar.


http://www.imultimedia.pt/galeriavirtualdacensura/

Férias de Verão

José Afonso na Figueira da Foz com o seu irmão João Afonso e o tio Filomeno.
(Foto retirada do livro "José Afonso, um olhar Fraterno" de João Afonso)

José Afonso e a canção de Coimbra

José Afonso, Coimbra, 1950


José Afonso começou a cantar fados quando frequentava o liceu D. Joao III, em Coimbra. Aí conheceu Luís Goes e António Portugal, ambos um pouco mais novos do que ele, e ai se iniciou um rico percurso musical comum, só interrompido quando rompeu com o acompanhamento da guitarra e evoluiu para outro género de cançao: a “balada”. José Afonso matricula-se em 1949 na Faculdade de Letras, em Ciências Histórico-Filosóficas, e, simultaneamente, é convidado por António Brojo para o seu grupo de fados. Este grupo, depois da "geração de oiro" dos anos 20-30 (António Menano, Edmundo Bettencourt, Lucas Junot, Paradela de Oliveira, Armando Goes, Artur Paredes!) recolocou o fado e a guitarra de Coimbra ao seu mais alto nível de sempre. Para além de António Brojo e António Portugal (guitarras) e de Aurélio Reis e Mário de Castro (violas) integraram este grupo Luís Goes, José Afonso, Femando Machado Soares, Femando Rolim, Sutil Roque e Florêncio de Carvalho, entre outros. . Em 1953, e depois de muitos anos em que não se tinham realizado quaisquer gravações de fados ou guitarradas de Coimbra, foi registado um conjunto de 8 discos de 78 rotações por minuto (isto é, 16 titulos no total), onde a voz de José Afonso foi pela primeira vez fixada em fonogramas, o mesmo acontecendo, aliás, com Luís Goes e Femando Rolim. Posteriormente, em 1956, José Afonso voltou a gravar mais fados de Coimbra. E só nao terá gravado mais porque, mesmo antes de terminar o curso, já casado e com dois filhos, teve de deixar Coimbra para ganhar a vida como professor do ensino secundário. Em 1981 - 28 anos depois de ter registado os seus primeiros fados de Coimbra - José Afonso reconcilia-se com a cançao coimbrã. Grava, entao, o LP 'Fados de CoImbra e outras canções", que de­dica a seu pai e a Edmundo Betten­court. (Refira-se que o Juiz Nepomuceno, pai do cantor, foi contem­porâneo e amigo de Bettencourt). Na realidade, este cantor-poeta da geraçao da Presença, a par de José Régio, Joao Gaspar Simões, Vltorino Nemésio e outros, é, de todos os cantores de Coimbra, o melhor para José Afonso: "O Edmundo Bettencourt foi o maior cantor de fados de todos os tempos. Ele marcou uma época, foi um elemento decisivo para a melhoría do gosto coimbrão, tendo sido, acima de tudo, um grande poeta" (Entrevista de José Afonso a António Macedo, "Sete", 1979). Numa modesta autobiografia, incluida no livro de José Viale Moutinho sobre o cantor (Vozes Livres - Livraria Paisagem - 1972), José Afonso recorda a sua iniciaçao no fado de Coimbra: "As minhas primeiras veleidades de cantor surgiram quando andava no 6º ano do liceu. As noites passava-as em deambulações secretas pela cidade, acompanhado de meia dúzia de meliantes da minha idade, amantes inconsequentes da noite. Com uma guitarra e uma viola fazíamos a festa. Estávamos ainda longe do hieratismo triunfal das serenatas na Sé Velha diante de multidões atentas e respeitosas. O velho Flávio Rodrigues conti­nuava a ser o Mestre, venerado por um pequeno discipulado de guitarristas e acompa­nhadores que com ele se reuniam numa pequena casa do bairro de Celas, onde acabou os seus dias minado por uma doença fatal (...). Seguiu-se um período de promoçao fadista em que acabaram por me colocar no palanque das estrelas de primeira grandeza. Outros acompanhadores (peritos e sisudos) e outras oportunidades em viagens pro­movidas pela Tuna e pelo Orfeon. São dessa época as minhas idas a África e as tournées através da província. Recordo-me de ter participado na inauguraçao de uma auto-maca, para os Bombeiros Voluntários de Pádua e de, por diversas vezes, ter dormido ao relen­to nos pinhais do rei." Mas, a certa altura, no final dos anos 60, José Afonso rompe com o fado de Coimbra e inventa (reinventa?) a balada. Numa entrevista a José Armando Carvalho ("Comércio do Funchal", em 1970) o can­tor explica- -se: "Designei as minhas cançoes por baladas não porque soubesse exactamente o significado deste termo, mas para as distinguir do fado de Coimbra, que comecei por can­tar e que, quanto a mim, atingiu uma fase de saturação. Achava-o muito sebentarizado, como que uma liçao que se receita de cor, pouco amplo nos termos e nos propósitos, um condimento mais na panóplia turística coimbrã". Anos depois, noutra entrevista (a Fernando Assis Pacheco, "Jornal de Letras", 1982), José Afonso afirma: "O fado de Coimbra era um folclore de elite, apesar de popularizado. Atraía irresistívelmente os futricas com quem os estudantes tinham uma relaçao simultânea de carinho e ressentimento." Com a gravação de "Fados de Coimbra e outras canções", em 1981, José Afonso re­concilia-se com o fado de Coimbra. Numa entrevista concedida a Belino Costa ("Sete", de 25/11/81), o cantor reconsidera alguns excessos anteriores: "O fado de Coimbra nao é de direita nem de esquerda: é um depósito de carácter cultural (...). Quando fui fazendo cançoes que me afastaram do fado de Coimbra nunca tive a atitude condenatória de dizer que o fado de Coimbra é uma grande merda, por isso acabou, ponto final. Naquela altura vivia-se um intenso periodo de actividade antifascista e tudo o que fosse tradlçao tinha de ser rejeitado. Foi uma atitude absolutista, de certo modo despótica, que foi necessário corrigir com o tempo e hoje está a ser corrigida" . Texto de José Niza


José Afonso no liceu D. João III com Manuel Nemésio, Carlos Couceiro,
António Santos Silva, entre outros. Coimbra, 1948



José Afonso no grupo de António Brojo com Mário Mendes, Fernando Rolim,
Carlos Figueiredo, João Melo e Mário Castro


José Afonso com Carlos Couceiro (espreitando) entre outros.

Sessão de fados em Casa do Dr. Carlos de Figueiredo em Nova Lisboa, 1960.
David Leandro, Jorge de Morais(Xabregas), José Niza, Sutil Roque e José Afonso.


José Afonso canta "Adeus Mouraria" com a Orquestra Ligeira da Tuna Académica. Angola, 1958.

José Afonso com David Leandro, José Niza, Levy Baptista e Sousa Rafael
no Cine-Teatro Restauração, Luanda, 1958.

José Afonso com Gouveia e Melo, César Faustino, Adriano C. de Oliveira,
Jorge Godinho e José Niza, em Estocolmo


José Afonso com Lopes de Almeida, Júlio Ribeiro, José Tito Mackay,
Álvaro Bandeira, José Niza e Machado Soares, entre outros.


Canta Luis Goes acompanhado por Fernando Xavier, António Portugal e Manuel Pepe.
Ao fundo, Rui Neto, Machado Soares e José Afonso.








De pé: Fernando Rolim, José Afonso, Florêncio de Carvalho, Luis Goes, Augusto Camacho e Machado Soares
Sentados: Aurélio Reis, António Brojo, António Portugal e Mário de Castro. 1952

José Afonso com Durval Moreirinhas e Octávio Sérgio, aquando da gravação do disco "Fados de Coimbra e outras canções" 1981.

Conferência "José Afonso, a balada e a renovação da música popular portuguesa"


Rua dos Fenianos,29 (Perto da Câmara Municipal do Porto)
http://www.clubefenianos.pt/

Concerto pelo "Ensemble Voct" - Zeca Afonso, Jazz e Beatles

13 de Julho de 2007 22h00 Núcleo Museológico da Capela do Espirito Santo dos Mareantes Sesimbra

Zeca Afonso, Jazz e Beatles

arranjos de: Eurico Carrapatoso, Gonçalo Lourenço, Alfredo Teixeira,
Christopher Bochmann, Carol Canning, Bob Chilcott, Alexander
L'Estrange, Jonathan Rathbone, Ward Swingle, Mark Williams


Entrada Livre
Organização: Câmara Municipal de Sesimbra
Nota: a lotação do espaço é de aproximadamente 50 pessoas.

Festa da diversidade - A AJA estará presente.




Couple Coffee no Music Box | 14 de Julho

Construtores de instrumentos em Portugal

Pedro Mestre
Instrumento que constrói: Viola campaniça
Endereço: Rua Zeca Afonso 4, Sete, 7780, Castro Verde
Telefone: 919094302 / 286935288
Email: mestre90@hotmail.com

Fernando Meireles
Instrumento que constrói: Sanfona, violas, cavaquinhos, guitarra portuguesa, restauros
Endereço: Rua Augusta Marques Bom, 29 6C, 3300-218. Coimbra
Telefone: 917494983
Email: sanfona@sapo.pt

Victor Félix
Instrumento que constrói: Gaita de foles, cordas
Telefone: 967532536

Mário Estanislau
Instrumento que constrói: gaita de foles, cordas em geral, sanfona (confirmar primeiro)
Endereço: Rua Principal, 22, Torres Vedras
Telefone: 261984995 / 965470264
Email: marioestanislau@clix.pt

Miguel Rodrigues
Instrumento que constrói: Cordas em geral
Endereço: Rua da Portela, 32 Almornos, Freguesia a Margem do Bispo. Concelho de Sintra.
Telefone: 96 236 995 (Suponho que este número esteja errado, quem tem o certo é o Mário)

Mestre Gilberto Grácio
Instrumento que constrói: Guitarra portuguesa, instrumentos de cordas
Endereço: Escadinhas da fonte nova, 6/8 r/c, Agualva-Cacém, 2735-105
Telefone: 964055385 / 969778503

“Atelier de instrumentos musicais de corda”
Endereço: parque de Atelier A-2, Quinta do Sales, Outurela, Carnaxide.
Telefone: 210 157 767

José Lúcio Ribeiro de Almeida
Instrumento que constrói: reconstroi instrumentos antigos com o auxilio do livro “Olhar Musical pelos Resíduos”
Endereço: Rua Élina Guimarães lote 6, R/C Direito, Bairro da Milharada,
Pontinha 1675 - 613
Telefone: 214792690 / 964059972
Email: jose-lucio@netcabo.pt / www.jose-lucio.com

Miguel Pimentel
Instrumento que constrói: Viola da terra
Endereço: Rua Dta. Do Ramalho, 86, 9500-180. Ponta Delgada - Açores
Telefone: 296286166

Domingos Martins Machado e Alfredo M. Machado
Instrumento que constrói: viola braguesa, cavaquinho, bandolim, guitarra portuguesa, beiroa, viola campaniça
Endereço: Tebosa 4705-630, Braga Portugal
Telefone: 253673855/916 030 669
Outras informações em: http//ncordofones.com.sapo.pt; www.jeira.pt-mcordofones

António Pinto de Carvalho
Instrumento que constrói: Fábrica de Instrumentos (vários)
Endereço: lugar da Garapoa – Celeiros 4700-615 Braga
Telefone:253672520
Email: apc_instrumentos@hotmail.com

Jorge Ulisses
Instrumento que constrói: (instrumentos medievais e outros, incluindo restauros)
Endereço: Rua Simões de Almeida, 9, Braga Portugal 4710-105
Telefone: 253 273 255
Email: ---

António Faria Vieira
Instrumento que constrói: Fabrico e reparação de todos os instrumentos de
cordas
Endereço: Lugar de Várzea – Várzea 4610-821 - Felgueiras
Telefone: 255 311892 / 964085029
Fax: 255 312 792

Instrumentos Moreira Filho
Instrumento que constrói: cavaquinhos
Endereço: Estrada Nova - Várzea
4610 - 811 Felgueiras
Telefone: 255 922 638 (o telefone
Tlm: 965 051 971
Email: ---

Joaquim Nogueira
Instrumento que constrói: Concertinas
Endereço: Matosinhos
Telefone: 229 514 422/93 415 55 02

Dª. Maria do Almurtão
Instrumento que constrói: Adufes
Endereço: Idanha-a-nova onde trabalha numa “Oficina de artes tradicionais”.
Telefone: 966 470 875

Sr. Amílcar
Instrumentos que constrói: Viola campaniça , instrumentos de cordas
Endereço: Odemira
Telefone: 283 925 347/ 963 742 155

Sr. Manuel Gonçalves
Instrumento que constrói: Bombos, adufes, timbalão, tamborins, pandeiretas
Endereço: Rua Central Sampaio, 173, 4445-378 Ermesinde
Telefone: 229 740 366
Orlando Trindade
Instrumento que constrói: Bandolim, cavaquinhos e réplicas de instrumentos antigos
Endereço: Estrada Principal n.º 71, S. Clemente, 1500-382 Alvoruinha, Caldas da Rainha
Telefone: 966 035 359
Mais informação em: www.orlandotrindade.com

José Manuel Dias Gonçalves
Instrumento que constrói: Todos os instrumentos de cordas
Endereço: Rua da Boavista, 71 Braga
Telefone: 253 612 428 / 936 313 381

Joaquim Rodrigues
Instrumento que constrói: Instrumentos de cordas e fabrica também as malas dos instrumentos
Endereço: Rua António Carvalho de Azevedo, 186 4770-611 Famalicão
Telefone: 252 375 829 / 965 120 320
Mail: mjcrodrigues@sapo.pt

João Pessoa
Instrumento que constrói: Electrifica instrumentos, constrói, repara e restaura
Endereço: Olhão
Telefone: 963 367 274
Mail: jpcustom@sapo.pt
Mais informação em: www.jpcustom.com

Artur Fernandes
R. Quinta Vale de Agude, lote 40
Assequins
3750 304 Águeda
962731164
concertinartur@gmail.com
afernandes@viseu.ipiaget.org
Ensino Concertina na
D'Orfeu - Associação Cultural
http://www.dorfeu.com/formacao/escola/permanente.htm
dorfeu@dorfeu.com

Fonte: http://www.pedexumbo.com

Zeca Afonso: conjugar o verbo ser

Excertos substanciais da entrevista concedida por José Afonso ao jornalista e escritor José Amaro Dionísio em Junho de 1985.

É belo, talentoso e honesto – e declinar esta adjectivação em português conduz facilmente a esse estado de orgulho e humildade que a história cultural do país tem rematado demasiadas vezes pela tragédia e quase sempre pela excomunhão. Aqui como em qualquer parte do mundo tirar-se-ia maior proveito do ser canhestro, medíocre e torpe, a trindade gloriosa dos winners que nesta viragem dos dias os media de bom senso e gosto corrente à falta de ideais um pouco menos fossilizados voltam a identificar com a trafulhice da política e dos negócios. Contra tal maré José Afonso fez claramente questão de cultivar duas ou três ideias sem cotação na bolsa: convicções, a palavra dada, a abjecção ao parasitismo ideológico e institucional. Hoje como ontem, aqui como não importa onde, há poucas pessoas assim em cada geração. A sublinhá-lo não deixa de ser curiosa a comédia que num país socialmente aviltado e politicamente traficado, onde os princípios sofrem sorrateiro escárnio no dicionário do lucro, José Afonso tenha sido uma referência ética para essa geração de esquerda que hoje está no poder, nos vários poderes, para aí cultivar a mistificação intelectual, a desonestidade moral e uma repugnante falta de escrúpulos a troco das migalhas da “democracia burguesa” que nos tempo áureos do seu esquerdismo tal esquerda acusava o intérprete de Cantigas de Maio de defender. E acusava-o porquê? Porque em pleno fascismo ele participava em reuniões e espectáculos de agitação ao lado de pessoas ou integrando organizações que para os puros da revolução e do marxismo-leninismo-maoísmo não estavam à altura dos horizontes vermelhos que profetizavam. Activista de “uma festa colaborante”, bateu-se por ela. Terno e agressivo, sarcástico e sensual, cantor de raízes populares e de Edmundo Bettencourt, credor de um trabalho fortemente personalizado mas sempre aberto à criação colectiva, sentimental irónico, andarilho dos grandes espaços, implacável quando confrontado com a hipocrisia, humilde, precário, contraditório e teimoso mas nunca sectário, atrevido frente à doença, José Afonso vive como só os melhores sabem viver: solitário e solidário, intransigente e dialéctico, leal nos ódios e nas paixões. O resultado ele sabe qual é:

Tudo está vazio e morto
Na abalada dos caminhos
E os homens estão sozinhos.

E di-lo à sua maneira nesta entrevista. A biografia deste país excessivas vezes subalterno é flagrante na persistência de um Portugal dos Pequeninos, feito de episódios a submissões estrangeiras, impérios castrados, fugas reais, governos humilhantes, obediências servis, uma congénita incapacidade de revolta colectiva e individual. Mas há também um Portugal dos grandes, habitado por essas resistências discretas que ao indecoro do salve-se quem puder tem preferido ao longo da história o desenlace da solidão moral e física, do exílio interior e exterior, muitas vezes do suicídio. José Afonso é uma criatura desse Portugal dos grandes. Sê-lo-á para sempre, porque homens assim nunca morrem. (…) Fisicamente debilitado aos 55 anos, ergue no entanto a mesma cabeça altiva que pequenas e grandes multidões conhecem de três décadas de cantorias e confrontos, dezena e meia de álbuns, centenas de milhar de discos, espectáculos sem conta, várias vezes cantor do ano e vários discos de ouro, bandeira enfim do 25 de Abril. Pessoalmente lembro-me dele de calças arregaçadas a apanhar caranguejos na Ria de Faro em certos fins de tarde mais soalheiros, era então professor numa escola da cidade e eu seu aluno – que apenas agora, quase trinta anos depois, volta a encontrá-lo cara a cara. Um dia, talvez na cantina, ouvi-lhe uma coisa que na altura me pareceu despropositada mas cujo sentido não tardaria a perceber – e que em 1968 se tornou um facto. Algo como isto: se correrem comigo do ensino não há problema, agarro numa viola e vou cantando por aí a fora. Estávamos em 1961 e ele era praticamente desconhecido.

Direita, esquerda. São noções que ainda determinam a sua relação com o mundo?

Não de forma maniqueísta. Nunca fiz isso e hoje ainda menos. Estamos sempre a mudar dentro daquilo que somos profundamente. A verdade é que a minha formação de origem é cristã. Até ao fim da adolescência eu ia regularmente à missa, assistia ao santo ofício, confessava-me. Hoje passa-se algo como o regresso às origens, não porque me tenha tornado de novo católico praticante, evidentemente, mas percebo que no fundo tenho uma concepção religiosa do universo. Vi um dia destes O Evangelho Segundo São Mateus, de Pasolini, e fiquei perturbado. E estou a ler autores como São João da Cruz e São Francisco de Assis. Há uma espécie de reencontro com os ensinamentos de Cristo, não o Cristo institucional e eclesiástico da minha infância, mas o Cristo dos que têm fome e sede de justiça.

E o marxismo, o leninismo, o maoísmo, a extrema esquerda?

Há um cruzamento dos dois tipos de formação. O marxismo, em sentido lato, não esgota o que eu penso, muito embora continue a reconhecer as suas descobertas fundamentais, como o conceito da alienação, a mais-valia, até mesmo a luta de classes. E há ainda o existencialismo. Fiz aliás a tese de licenciatura, má, sobre Sartre, e em particular sobre O Ser e o Nada. De resto nunca disse que era marxista, stricto sensu – aliás seria incapaz de ler alguma coisa como O Capital, no seu conjunto. O meu envolvimento nas coisas foi sempre de carácter existencial, a partir da observação directa de situações que me revoltaram e que têm a ver com o mundo do trabalho, da família, ou com noções muito gerais como a luta anti-imperialista, o direito dos povos à autonomia, etc. É algo que passa mais pela sensibilidade, pela maneira como cada um se move no mundo, do que por questões de principio ou de filosofia.

É uma imagem bastante mais tolerante do que aquela que se cola ao seu perfil público.

Não renego nada do que fiz, mas também não receio corrigir a minha imagem perante mim próprio adoptando atitudes nas quais me sinto bem e combatem os meus álibis internos e autojustificativos.

Que álibis?

Finalmente sou um pequeno-burguês, filho de um juiz supremo que fez carreira nas colónias. Isto e uma infância vivida na solidão deixa marca de cuja importância muitas vezes só nos damos conta muito tarde. Quando fui preso tive bem consciência das minhas limitações.

Que limitações?

Bem, não estou a fazer uma confissão para que me absolvam, mas tenho mais pés de barro do que se poderá pensar.

Mas você é tido como um intelectual que sempre esteve do lado oposto ao poder, de todos os poderes, e que age de acordo com as suas convicções. Corajoso e frontal.

São palavras.

Enfim, é o que pensa muita gente.

Frontal, sim. Corajoso, não. O medo foi sempre um sentimento que conviveu comigo. O medo a que se sobrepunha uma sensação de angústia, género “como é que me vou comportar em tal ou tal situação?”. Pouco depois dos Acordos de Alvor fiz uma digressão com o Fausto a Angola e vivemos situações difíceis. Também aí tive medo, várias vezes.

Disse-se na altura que lhe tinham querido bater em palco.

Ou mais do que isso. Tudo começou numa conferência de imprensa em que eu defendi o MPLA contra os outros movimentos. A partir daí as provocações acompanharam-nos por todo o lado. Tipos da UNITA, da PIDE, que ainda por lá andavam, da FNLA, etc. Foram uns bons cagaços.

Mas alguma vez deixou de fazer, por medo, alguma coisa que entendia dever fazer?

Em geral não. Mas houve uma vez, durante a campanha de Otelo, em 76, o carro dele tinha sido baleado ali para os lados de Lamego e a certa altura põe-se o problema de ir ou não ir a Viseu. Dizem-nos que a cidade estava agitada com uma data de retornados que nos queriam limpar o sebo. Bem, eu fui dos que fez pressão para não irmos, e não fomos.
(…) Após o 25 de Abril pus-me à disposição das comissões de trabalhadores, moradores, de grupos, para animar as lutas que faziam nos seus locais de trabalho. Então recebia cartas, telefonemas, deputações de facções opostas que reivindicavam a liderança das lutas e a justeza das teorias que apresentavam. Acabei por ser obrigado a analisar montes de documentos antes de decidir se havia de ir cantar ou não ao sítio tal, e como. Mas este tipo de coisas não se passou só comigo, há pessoas que se desgastaram bastante mais. Os tipos do GAC, por exemplo. Ou o Adriano. O Adriano chegava a ter de andar à porrada por essas aldeias fora. Houve casos em que o padre da terra utilizava a missa para avisar a população contra os comunistas que iam chegar. Em Maceira da Nazaré as pessoas puseram-se uma noite ao largo durante o espectáculo, ou na soleira da porta, ou atrás das janelas, empoleiradas, etc, por causa do padre. E cantámos com microfones mais do que rudimentares ligados a cornetas de circo em vez de colunas. Era uma coisa que acontecia com frequência, e se perguntávamos aos organizadores “mas vocês querem que a gente cante com cornetas?”, os tipos admiravam-se muito. “O quê? Vocês duvidam desta aparelhagem? Olhem que isto faz um berreiro dos diabos!”. E fazia, claro. Era um cagaçal de tal ordem que acabávamos por pedir que desligassem aquilo e púnhamo-nos a cantar vira. Apareciam então uns velhinhos do asilo ou coisa parecida que fazem pares à boca de cena e dançavam… Outras vezes, como éramos um grupo que defendia a iniciativa popular, convidámos para cantar quem quisesse. E aconteciam coisas do diabo, do género um tipo a cantar fados marialvas à brava depois de nós termos acabado de fazer uma prelecção a favor da igualdade de sexos. Ou uma voz lá atrás a gritar “A gente quer é gajas!”. Esta das gajas foi num foyer, em Paris, numa sessão para portugueses, marroquinos e espanhóis. Estava a casa cheia. No fim eles vinhem até junto do palco e punham-se a olhar para as nossas mulheres. Os comentários eram de desarmar qualquer um. A pouco e pouco perdi por completo as esperanças de atribuir aos cantores qualquer papel providencial, senti-me mais como uma Supico Pinto de esquerda a distribuir engodos. Uma vez na Marinha Grande estava eu a cantar “Ò meu Potugal tão lindo / Ó meu Portugal tão belo / Metade é Jorge de Brito / Metade é Jorge de Melo” e aparece ao meu lado um espontâneo coxo que à cadência da música atirava a perna incrivelmente longe e gritava “Não há pai para o coxo / Não há pai para o coxo…”. São momentos verdadeiramente memoráveis das campanhas de politização da Música Popular Portuguesa.


Se voltasse a cantar faria um percurso diferente?

Não voltaria a cantar.

Em nenhuma circunstância?

Em nenhuma circunstância. Para o público, não. Até porque possivelmente não teria nada de novo a apresentar. E acho que as coisas devem acabar quando não adiantam nada. De resto sou obrigado a concluir que o meu trabalho como cantor é menor… A crítica em geral reduz-me ao autor das Cantigas de Maio, o que quer dizer que antes e depois não fiz nada que preste. É uma bela crítica de música, a nossa! Tem-me proporcionado notáveis baboseiras sobre o trabalho de colegas, trabalho esse que em qualquer país decente seria suficiente para afirmar o mérito dum cantor, pelo menos.

Não voltaria a cantar, é claro nesse ponto e já explicou porquê. Mas está arrependido de ter participado em toda essa actividade de agitação?

De forma alguma, e que isso fique também claro. Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é o que fica. De resto nunca confundi as coisas, sempre disse o que hoje continuo a dizer: uma viola é uma viola, uma canção é uma canção, e não se pode confundir isso com armas e granadas. Nenhum instrumento musical faz tiro curvo.

Que pode pedir a uma canção então?

Que faça bem aquilo que tem a fazer, que é do domínio da fruição musical, com o que isso implica de voz, arranjos, ritmos, intenção, energia. No meu caso o que fiz foi procurar conciliar isso com as raízes da nossa cultura musical reflectindo uma certa ordem de preocupações sociais, de solidariedade e afectividade.

Musicalmente fez o que queria fazer?

Não. Gostaria de ter trabalhado muito mais na investigação dos instrumentos, das lendas, da música regional. E fiz demasiadas sessões sem concretizar o que queria, como se depreende do que estou a contar.

Na última fase da sua carreira manifestou desejo de suscitar o interesse dos jovens para o seu trabalho. Em que consistiria essa fase?

Gostaria de ajudar a mostrar à juventude que há alternativas, no estrito campo da fruição musical, a certas correntes puramente comerciais, como a maior parte do rock que nos metralha os ouvidos de manhã à noite. A música irlandesa nunca passou por aqui, tal como a occitana, a afro-cubana, e mesmo muito da música africana.

Tem pena de não ter realizado esse trabalho?

Não. Afinal de contas tudo o que fiz como cantor foi porque não pude continuar a ser professor. Em resumo foi cantor porque deixei de ser professor e finalmente sou coisa nenhuma porque deixei de ser cantor. Estou preparado portanto para renunciar de boa vontade ao que não fiz.

Esse tom de renúncia não se aplica contudo à política.

Não, embora hoje confira um papel mais modesto à luta política. Pode modificar estruturas, mas não remove uma sociedade, não transforma um homem noutro homem. Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde existe opressão, seja a que nível for. De resto tenho pouca autoridade para falar porque a minha contribuição foi bem pobre. Nunca estive na luta armada, nem sequer fui torturado.

Mas esteve preso várias vezes.

Sempre pequenas detenções. A maior foi de 21 dias. Estive incomunicável mas nunca me torturaram fisicamente.

A propósito de prisões e luta armada. Qual é a sua posição sobre a guerrilha urbana, o chamado terrorismo?

Penso que é um recurso legítimo. Sabemos hoje que os programas de partidos, as promessas eleitorais, a igualdade dos cidadãos perante a lei, o parlamentarismo, enfim, todas essas tretas são armadilhas de uma imensa minoria que vive luxuosamente à custa de uma imensa maioria. O Estado democrático revelou-se tão arbitrário como qualquer outro, serve antes de mais nada para impor as leis relativamente às quais se constitui em excepção. Por outro lado embora haja partidos que se aproximam mais dos interesses dos trabalhadores e outros que são contra esses interesses a verdade é que a escolha entre os partidos A, B, C ou D acaba por não oferecer uma alternativa de fundo aos privilégios de Estado uma vez que todos eles se movem segundo a mesma lógica que cria um fosso entre o cidadão comum e os senhores do Poder. Perante um quadro destes acho absolutamente legítima a guerrilha urbana. Não faz a revolução, presta-se mesmo a alguns equívocos, mas tem ao menos a vantagem de radicalizar a indignação e sobretudo de repor pontos de equilíbrio numa relação de forças em que o cidadão comum é permanentemente ludibriado pelo discurso e pelas artimanhas dos profissionais da política. Só é pena que a guerrilha urbana em Portugal seja tão incipiente e não tenha ainda apontado as armas para onde deve apontar. A partir da altura em que o fizer talvez a classe política se dê conta de que os brandos costumes do bom povo português não são uma fatalidade do destino.
(…) Admito-o hoje sem reticências: não temos revolucionários, não temos sido um povo de grandes revolucionários. Mas uma esquerda que não consegue juntar mais dumas mil pessoas numa manifestação contra a visita de Ronald Reagan é uma esquerda que não existe.

Admite que a fim e ao cabo os povos têm os governos que merecem?

Tenho oscilado entre recusar essa conclusão e admiti-la. É um facto que no povo português há uma tendência para a subserviência, para se curvar perante a autoridade, para o compadrio, os favores, para o deixar andar. Mas tudo isso existe ao lado de uma certa truculência e dignidade. Conheço muito bem os alentejanos, por exemplo. São pessoas pobres, talvez sem grande combatividade, mas existe nelas uma dignidade perturbante. Não é fácil pisá-las, embora pareça fácil abusar delas durante muito tempo.

Segundo a antiga Comissão de Extinção da PIDE/DGS os processos efectivamente levados a tribunal por actividade política antes do 25 de Abril não chegaram a atingir 3 mil pessoas ao longo de 48 anos. É um quadro um pouco diferente daquele que a oposição gostava de publicitar e que ainda hoje reivindica.

Antes do 25 de Abril nós conhecíamos de Norte a Sul do país as pessoas que se atreviam a lutar realmente contra o regime – e eram de facto muito menos do que se gostava de dizer. Alguns intelectuais afirmam ainda hoje que a nossa geração, a minha geração, foi muito castigada, mas eu não penso isso. Mesmo a repressão foi adaptada aos bons costumes deste povo. Não se mata um governante em Portugal há 75 anos. Isso diz tudo, se pensarmos que tivemos o regime fascista mais longo da história contemporânea.

Por outro lado esses intelectuais estão hoje no Poder. Um pouco por todo o lado, dos gabinetes ministeriais ao IPC, da Gulbenkian ao Governo de Macau, da Comissões da CEE às empresas públicas e à Comunicação Social. Na noite da vigília a Otelo Saraiva de Carvalho esteve lá você, o Vítor Wengorovius, Luís Galvão Teles, Luís Moita e poucos mais. Que é feito dos seus amigos de Coimbra, das baladas, da resistência, do famoso PREC?

Pela minha parte não tenho grande coisa a dizer sobre isso. Acho que os intelectuais deste país têm os Soares que merecem. É realmente uma geração que gosta de se apresentar a si mesma como vítima da desilusão. Para mim é uma atitude de traição, que não têm a coragem de confessar e por isso inventaram grandes malabarismos. Depois encostam-se ao PS, ao PSD ou a qualquer outra muleta do poder. Digamos que são pessoas que não me interessam.

O que acaba por ser curioso é que você contesta a democracia parlamentar com a mesma veemência com que contestou o fascismo.

O problema é que os direitos formais têm cada vez menos conteúdo prático. As liberdades formais não servem para nada se não tiverem consequências no dia a dia das pessoas. Teoricamente não há censura, não existe repressão policial ao nível da política, pode-se portanto falar, escrever, etc. Mas os mecanismos de coerção e discriminação permanecem. Mais subtis, mais pulverizados, mas permanecem. O que não quer dizer que eu não preferia a democracia formal ao fascismo, é evidente. Mas no fundo a liberdade é antes de mais nada a liberdade de se viver melhor. Por isso a liberdade para o doutor Mário Soares é uma coisa e para o tipo que está sem salários ou sem emprego ou sem casa é outra. Em quase toda a região de Setúbal há fome, mulheres casadas e raparigas prostituem-se para comer. Que sentido faz falar a estas pessoas da liberdade da democracia? Claro, há uma data de gente que vive melhor do que antes do 25 de Abril, mas à custa de clientelismos partidários e favores políticos que não afirmam propriamente os trunfos dum regime. (…)

"Venham mais cinco" gravado em França

Foto de José D'Almeida

José Afonso numa cooperativa com os trabalhadores - Junho de 1976

Era um redondo vocábulo - António Vitorino D'Almeida

"Grande engano! Mísera sorte! Estranha confusão! ... - são palavras utilizadas por Luís de Camões para definir alguns de­sastres do aventureirismo lusitano. . .
E não sei porquê - até porque o espírito que presidiu a essas aventuras se baseava num conhecimento profundo e altamente especializado da arte de marear, devendo-se os desastres a con. tigências próprias dos anseios descomedidos do Poder, e nunca a falhas gritantes de competência técnica..., estas palavras incisivas do poeta renascentista vêm-me à memória sempre que penso nos sons da angustiosa indigência artística e intelectual prod uzidos por alguns grupos musicais portugueses com larga audiência no nosso caseiro mundo do espectáculo, afora alguns indeléveis recortes para o álbum das recordações excursionistas por terras de Espanha, alegria das famílias e orgulho patriótico de uma imprensa dita especializada...
A eminência parda que, em derradeira instãncia, sempre decide as eternas questiúnculas entre o "querer" e o "poder" é, indu­bitavelmente, o "saber"... Quem sabe, pode quando quer; quem não sabe, até ignora o que poderia se acaso quisse aprender... Para mim, a norma de conduta mais razoável e eficaz consiste em saber-se o que se pode e fazer-se, em função disso, o que se quer. Quem não sabe o que pode, acaba por fazer o que não quer. . . E quando vejo louvar e incentivar a actividade desses in­válidos da música, o seu trôpego caminhar por sobre os calháus ásperos de um som não dominado, por entre os cardos da inépcia mais grotesca, volto a lembra-me do discurso camoneano, sou tentado a perguntar aos empresários, aos agentes, a certos crí­ticos e jornalistas confessamente virgens de qualquer conheci­mento técnico (ou mesmo histórico!...) Na matéria sobre que dissertam enquanto apoiam movimentos de tão previsível mau destino:
"A que novos desastres determinas de levar estes Reinos e esta gente? Que perigos, que mortes lhes destinas debaixo de algum nome proeminente? Que promessas de reinos e de minas de ouro, que lhe farás tão facilmente? Que famas lhe prometerás? Que histórias? Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
Camões acaba por amaldiçoar aqueles que puzeram nas ondas o primitivo madeirame de barcaças encimadas por uma vela. Eu não amaldiçoo ninguém, é óbvio; mas espanta-me, assusta-me, a leviandade com que se põe num palco, num estúdio, sujeito à verdadeira - e implacável - crítica do futuro, gente que nem sabe pegar num microfone para gemer a sua importância vocal, poética e musical. . .
De todos os actuais êxitos e aplausos ficará cinza, pó e nada. Ficará o fel das grandes ressacas, o sabor do papel de música que nunca se provou... E isso é tanto mais grave quanto não está provado que todos esses infelizes homenageados de hoje, gozados de um àmanhã já próximo, sejam por natureza destituí­dos de jeito, capacidade de aprendizagem, até de certo talento para a arte que tanto amam, ainda que sem serem correspondi­dos... A música (tal como qualquer outra actividade profissio­nal...) não vai nas cantigas de tais namorados: São fulanos que ostentam, na melhor das hipóteses, uma fachada razoável, mas que deixam logo a certeza de não terem o interior mobilado...
Nós podemos apreciar mais ou menos, muito, pouco ou mesmo nada, um determinado estilo, sem que isso nos leve a ignorar onde é que está um profissional, alguém que se sabe mexer, al­guém que sabe cantar, que sabe tocar, que consegue indiscuti­velmente transmitir uma ideia, um pensamento, uma filosofia... Essa filosofia pode desagradar-nos, até; mas a capacidade té­cnica ou artística de quem a comunica não deve ser posta em causa, sob risco de perdermos o desafio por abuso da autocon­fiança, por ridícula estultícia e arrogância...
Portanto, nâo interessa, em princípio, saber se todos g~stamos ou não da mesma música, se todos esta mos de acordo com deter­minadas correntes de pensamento; trata-se, para já, de exigir que os seus defensores saibam exprimir-se, pois só a partir daí poderá haver discussão ou confronto de opiniões.
Não caindo na tendência altamente reaccionária de separar as formas dos conteúdos, temos que admitir que o mundo em que vivemos - ou sobrevivemos... - tem ao seu serviço expressões artísticas que definem as suas problemáticas, a sua ideologia, as suas coordenadas de pensamento: a música de uma sociedade poluída não pode ser límpida como um ribeiro de águas nascen­tes, não pode ter contornos sonoros definidos ou puríssimos, mas terá, necessariamente, de ser pastosa, poluente, insalubre, en­démica. Na verdade, se consentimos que um rio seja sinónimo de esterqueira, como poderíamos aspirar a uma música de en­cantos pastorais onde pudéssemos mergulhar e nadar sem o perigo das mais abjectas contaminações?!
É evidente que este é o meu ponto de vista. Mas há quem de­fenda que toda a trampa vale a pena quando a indústria não é pequena. Há quem colabore com as forças de manutenção deste mundo e que defenda como útil e indispensável a entrega a pa­raísos artificiais compensatórios do inferno em que transforma­ram a realidade concreta. Há quem defenda efectivamente a droga e a alienação, a ignorância das tragédias e das aberrações como forma de sobrevivência - e essa filosofia tem a sua música própria, assente numa estética correspondente e coerente.
Eu sou contra esse mundo, essa filosofia e essa música - e estou no meu direito, parece-me... Tal não significa, entretanto, que negue (seria absurdo fazê-lo!) a capacidade profissional dos seus mais eficazes defensores: são de tal modo eficientes que há mi­lhões de pessoas que não reagem contra esse destino de inqui­linos de uma sempre crescente lixeira, ou que julgam que para combater semelhantes perigos e ameaças bastará ouvir música e idolatrar cantores, o que deixa, naturalmente, uma invejável margem de manobra aos responsáveis pela esterqueira.. .
Pelo contrário, há grupos musicais entre nós cuja nulidade não permite discussão; é correspondente à sua total ausência de ideologoa - direi mesmo de raciocínio em relação aos problemas sociais, culturais ou políticos... Mas essa nulidade permite que o grotesco macaqueamento de uma linguagem de teor neo-fascista, por exemplo, possa ser utilizado, sem atritos de qualquer espécie, numa festa de ideologia progressista - e vice-versa!
Mais ainda, estes párias da cultura são muito estimados e pro­movidos por todas as forças partidárias, tanto faz que cantem para uns como para outros, que mudem de candidato presiden­cial ou de grupo parlamentar como quem troca as cuecas. Essen­cial é que a sua mensagem seja absolutamente oca de sentido e que a própria forma como se exprimem não se arrisque a nenhu­ma definição de fins nem de princípios. Gente para usar e deitar fora...
Ora essa gente... é gente! longe de os condenar como culpados, eu considero que esses lamentáveis grupos são as grandes vítimas de um sistema efectivamente infame, pluralista saga de uma anti-cultura militante, a castração da crítica, a busca a uma so­ciedade amorfa e conformada, apenas ruidosa, o muito barulho para nada, a ausência de uma vontade autêntica e actuante. Al­guns desses actuais incapazes poderiam talvez deixar de o ser se seguissem um exemplo respeitável, uma filosofia concreta.
O símbolo de uma filosofia de participação e de responsabili­zação dos artistas e intelectuais nos destinos do mundo encon­tra-se na música e nas ideias de José Afonso.
É um disparate argumentar-se com a teoria de que ele não sabia música. Sabia a música de que necessitava para defender os seus conceitos. Poucos como ele foram capazes de tomar conheci­mento do que podiam para fazerem depois o que queriam!
Em nenhuma obra de José Afonso se pode lamentar que ele não tivesse conhecimentos suficientes para se exprimir literária e musicalmente. Foi um artista que soube paradigmaticamente en­contrar a forma que correspondia ao seu conteúdo ideológico, sem cedências nem transigências, sem qualquer vislumbre de conformismo ou de aceitação de uma menoridade: o que fazia era bem pensado, bem escrito, bem composto e bem cantado! José Afonso é hoje muito elogiado, nomeadamente por alguns que ele menos poderia suportar em termos artísticos - e não só... Mas isso não é grave. Antes pelo contrário, pode ser muito relevante se os homenageadores se esforçarem por aprender com o homenageado. Que se transformem, quanto possível, os ama­dores na coisa amada - e tudo ficará certo. . .
Não se trata de saber solfejo, leis de harmonia ou normas de con­traponto. Nem mesmo se trata de conhecer muitas posições na guitarra. José Afonso nunca precisou disso... Do que ele nunca prescindiu foi de criar uma técnica própria, foi de evoluir artis­ticamente até ao ponto de ser, para todos os efeitos, um Mestre. E o caminho por ele percorrido passou, inevitavelmente, pela consciência de que toda a arte exprime um ideário, se orienta por conceitos estruturados com base naquilo em que se acredita e que se pretende defender.
Não vou sequer ao ponto de desejar que todos perfilhem - como eu tento perfilhar, na medida do meu possível - a linha ideo­lógica pura e intransigente de José Afonso, um homem bafejado pela Razão e por um superior sentido de Justiça, valores que se pagam muito caro. . .
Penso, isso sim, que o simples respeito pelo artista que ele foi, o seguir do seu sistema de trabalho como padrão para o estabe­lecimento de um critério de valores profissionais, já poderia ajudar muita gente a enveredar por uma estrada digna e a li­vrar-se do juizo final de um público que aplaude, compra, con­some... - mas, no fundo, não perdoa!
in Revista nº 1 da AJA de 1988

"Uma canção" por Maria Teresa Duarte Marinho

Correm velozes vários animais na erva molhada. É ele que os vê espreitar e logo de seguida desaparecer, enquanto vai conduzindo o camião cheio de homens que vestem ganga velha, a cara da cor do carvão. Gritam e agitam os braços para as mulheres à beira da estrada, as crianças em busca de mais amoras.
Ao longe tocam guizos. E sinos. Depois de algum silêncio, recomeçam todos os sons. Da mais antiga cidade alemã trouxe um rádio chamado ELEKTRA, que pôs sobre o chão de ardósia do moinho de azenha transformado em casa para viver. Avança para ele e espera um bocadinho (antes da música, já se acende dentro uma luz constante). E agora ouve-se de novo a mesma canção.

Fragância morena/ Portal de marfim/ Ondina açucena/ Chamando por mim

Às vezes também canta. Com o casaco pelos ombros, caminha entre os pinheiros, esta mania dos pés quase descalços, pisar flores que ninguém viu nascer. Segura um pau e com ele recusa os picos, afasta fetos. Pingas grossas caem-lhe na testa e desata a correr, lembrando-se da voz desconhecida. Inventa novas palavras para a música da canção; escreveu uma vez um poeta que tudo canta e cantar é enorme. Tudo canta e cantar é enorme.
Procura a bicicleta debaixo da caruma e monta-a. Pára para colher frutos, enche com castanhas ainda verdes os bolsos. Retira-as dos ouriços e fica feliz por não se magoar. Ali em baixo, inventou há muitos anos uma história. Eram duas miúdas em que uma tinha olhos de quem está sempre a subir uma escada de caracol. Essa dizia à outra que via na rua jarras cheias de prata e saturava-a, propondo-lhe planos de roubos e fugas. A outra respondia-lhe que isso tudo era uma alucinação com tanta luz, o que na verdade tinha diante dos olhos eram vasos do longo corredor segurando abundantes ramos de camélia branca, com um brilho não muito longe do da suave prata. Ele contorna as árvores em sitios cada vez mais perigosos, levanta-se do selim. Fixa-se o riso; como sempre quer agarrar tudo à volta.

Na flor da montanha/ Na espuma a cair/ Nos frutos de Agosto/ Na boca a sorrir

À noite, a euforia das festas. As luzes, o fogo. Jogos de moedas. Tremem os palcos improvisados à frente de cafés e tabernas com rendas de videira sobre as portas. Bebidas, conversas, mais canções que se ouvem. Muitos rapazes e raparigas com fitas apertando os pulsos, é ai que acreditam estar a sua sorte. Atravessa as aldeias, nos caminhos às curvas inclina-se, solta do guiador as mãos, procurando equilíbrio. Fogo de artifício começou há pouco a cair, sem sequer chegar a deitar lágrimas.

Ai húmida prata/ Meu sonho sem ver/ Ai noite de lua/ Meu lume de arder

Ele está de pé, frente à última janela na sua casa da cidade. Uma boca que pousa na orelha. Quem é? Vira-se e diz-lhe nos cabelos: pensa na tua cabeça, já viste como a tens? Ela leva logo as mãos à nuca. (Com o avanço dos dias, ELEKTRA repete maior número de canções. Algumas pessoas já foram à rádio falar da vida do autor, mas eles preferem a voz de quem canta). Regressa trazendo uma tijela de água, sai-lhe um fino pente do bolso. Ele ajoelha defronte dela e molha devagar o pente. Em que pensas? Em nada. Faz-me um risco ao lado que é o risco mais bonito que há. Depois levanta-se e vai até ao primeiro degrau da escada, apoia-se e começa a escorregar no corrimão lustroso, reflectindo a humidade dos cabelos. Nunca mais a há-de ver.
Tinha uma oficina junto ao porto. Ao acabar de limpar vasos e pintar azulejos, imaginava futuras combinações, então beijava as suas próprias mãos. Nos instantes em que sinos tocavam, acreditava poder encontrá-la ao pé da água, mirando luzes frouxas. Acertara um encontro, mas tomava-se cada vez mais tarde. Passeava à beira das docas e nas praças pareceu-lhe uma noite reconhecer o homem que cantava aquela canção. Chamava-o pelo próprio nome mas ele não respondia, acabando por se sumir, como se a Terra fosse demasiado redonda. Queria dizer-lhe uma coisa, desejava dar-lhe o braço e repetir-lhe ao ouvido um elogio. Se não nascesse, tinha que ser inventado.

Da morte zombando/ Na aurora lunar/ Num jardim suspenso/ Do seu fulgor.

Pela memória, contra o esquecimento - Júlio Murraças

Para não deixar que, mesmo temporariamente, o Esquecimento enterre a Memória, trazemos à lem­brança sinais de um tempo em que, como recentemente recordou Manuel Alegre, havia o fascismo e havia a guerra, havia a guitarra do Portugal e do Paredes, as vozes do Zeca e do Adriano. E, a par da brutal repressão política havia também, acções, hoje felizmente consideradas inconcebíveis e risíveis, como aquela lembrada por Zeca Afonso numa entrevista ao "Sete" em 83, " em que os polícias anda­vam pelos jardins a ver quais os parzinhos enlaçados para lhes pedirem a identificação e os levarem para a prisão". Mas havia sempre alguém que resistía, alguém que dizia não, lembramos nós. E a cantiga era uma arma, que o regime fascista não queria deixar funcionar. Para tal, recorria aos meios repressivos que tinha, nos quais voluntáriamente se incluíam, entre outros governadores civis, presidentes de câmara e administradores de bairro. Sempre A Bem da Nação, todos cumpriam, servil e fervorosamente, o seu papel na máquina policial do Estado, denunciando entre si a ocorrência de actos tidos por subversivos, com o claro e propositado objectivo final de informar a polícia política -Pide/DGS-, e manter o regime. Neste sentido, e para exemplificar, em 17-4-70, reinava a ilusória "Primavera Marcelista", o governador civil de Lisboa transmitia ao administrador de bairro da Amadora o conteúdo de uma circular do gabinete do Ministro do Interior (Doc.l), no qual fazia saber que "As informações recebidas através da P.S.P. mostram que o Padre Fanhais desenvolve em todo o País uma actividade indesejável cantando baladas cujos temas não se compadecem com o clima rmJral que é preciso manter para assegurar a defesa do Ultramar e garantir a integridade da Pátria." Menos célere no cumprimento dos seus deveres foi o governador civil de Santarém, que enviou a mesma circular 4 dias depois para o presidente da câmara municipal da mesma cidade. A velocidades diferentes, o sistema repressivo funcionava. Contudo não impedia a multiplicação dos "espectáculos/convívios" que se iam realizando, "algumas vezes até clandestinos", sem sequer submeter as canções à obrigatória censura prévia, desafiando as regras impostas pela ditadura. Ultrapassado pela persistência e coragem dos seus opositores, o governo não desistia e aprefeiçoava os seus métodos: Afonso Marchueta, governador civil de Lisboa, em aditamento a anterior circular, enviava a transcrição de um ofício da Direcção dos Serviços de Espectáculos aos seus delegados concelhios (Doc.II), onde se preconizavam medidas mais drásticas, tendentes a dificultar a realização dos espectá­culos e limitar os seus protagonistas, indicando alguns nomes "a cujos programas não deve ser conce­dido o visto: Padre Francisco Fanhais, Zeca Afonso (Dr. José Afonso), Barata Moura, Manuel Freire, etc.". Meses mais tarde, em Março de 1971, outra missiva (Doc.III) acrescentava a esta lista outros nomes: Adriano Correia de Oliveira, Rui Mingas, (José) Jorge Letria, Tossan, Deniz Cintra e o Grupo Intróito, classificando como "os mais extremistas" Padre Francisco Fanhais, Zeca Afonso e Manuel Freire, e "mais moderados" os restantes... Em 73, ano de "eleições", o regime continuava a isolar-se, interna e externamente, e a afundar-se em fatais contradições. Ainda assim, continuava a procurar aperfeiçoar os métodos repressivos para impedir que as vozes dos cantores da Liberdade se fizessem ouvir, para o que contava com os seus Venerandos e Obrigados ser­vidores. E é neste quadro, onde, em clubes e colectividades recreativas e associações estudantis, os "convívios" eram cada vez mais usuais, que em 27 de Março o ministro Gonçalves Rapazote, transmite a todos os governadores civis e presidentes de câmara, a indicação para a adopção do conjunto de medidas suge­ridas pelo director geral da Cultura Popular e Espectáculos (Doc.IV), com o intuito de dificultar a sua con­cretização, tornando mais exigente a aquisição do visto e impondo a necessidade de exercer pressão 'Junto dos organizadores, dos exploradores dos recintos ou dos dirigentes das instituições onde se saiba que devem ser realizados..." Mais tarde, a 29 de Março de 1974, no Coliseu dos Recreios de Lisboa, sob a habitual vigilância polici­al, teve lugar o Encontro da Canção Portuguesa, com a participação, entre outros, de Zeca Afonso, a quem a Pide e a censura apenas deixou cantar "Milho Verde" e "Grândola, Vila Morena". Esta ultima, sugeriu a elementos do MFA que se encontravem presentes a senha do movimento libertador. Pouco tempo depois, como é sabido, a ditadura caíu dando lugar à Liberdade e Solidariedade, permitin­do ver mais de perto a UTOPIA: cidade sem muros nem ameias.

Doc.I

Doc.II


Doc.III

Doc.IV

Pintura de António Galvão - 1994


Escultura de Francisco Simões

Estátua em mármore de José Afonso, de 4 metros, da autoria do escultor Francisco Simões.
Inaugurada em 1991 pela Câmara Municipal da Amadora, situa-se no Parque Central cidade.

"Música nos Claustros" com concerto dedicado a José Afonso



Sinopse: Nos 20 Anos da Morte de José Afonso o Grupo apresenta temas do autor propondo uma viagem pela riqueza e diversidade de temas, contextos, linguagens musicais e expressão de sentimentos e ideais de liberdade, paz e justiça.
O Octeto 4 por4 foi formado em 1999 e está vocacionado para divulgar música vocal, com ou sem acompanhamento instrumental, harmonizada até oito vozes. É constituído por Maria do Anjo Albuquerque e Ana Cosme (sopranos); Ana Serôdio e Manuela Teves (contraltos); Vítor Paiva e Joe Coronado (tenores); João Rosa e Ciro Telmo (baixos). Tem actuado em todo o país, destacando-se o Centro Cultural de Belém.

13 de Julho, às 21h30, Grupo 4 x 4 – Canta Zeca Afonso
Local: Claustros do Convento dos Remédios

Público aplaudiu projecto de Davide Zaccaria de pé

O projecto “Terra d’Água” conta com a participação de grandes vozes femininas como Dulce Pontes, Filipa Pais, Maria Anadon e Uxía.

O Teatro da Luz recebeu, quinta-feira, o espectáculo idealizado pelo músico Davide Zaccaria que encontrou a música de José Afonso como ponto de partida para o encontro de cantoras de várias áreas diferentes. O projecto que se intitula “Terra d’Água” conta com a participação das vozes de Dulce Pontes, Filipa Pais, Maria Anadon e Uxía. A ideia completa-se com os músicos Filipe Lucas, à guitarra portuguesa, Jaume Pradas, na percussão, Nuno Oliveira, no baixo acústico, Victor Zamora, ao piano eléctrico, José Soares, à guitarra clássica e Davide Zaccaria no contrabaixo.
O espectáculo de apresentação do CD, que já está à venda, contou com a presença em palco de seis músicos e com as vozes de Filipa Pais, Maria Anadon e Uxía, sendo que Dulce Pontes não esteve presente por se encontrar doente. O concerto teve sala cheia e o público no final de cada música de Zeca Afonso aplaudia efusivamente. No fundo da sala do Teatro da Luz, ouviam-se frases a saltitar como “Linda!”, e um burburinho que permitiu ao NM ver que o público estava a adorar as vozes e as músicas que as cantoras lançavam do palco.
O espectáculo fez o público adorar as mudanças que Davide Zaccaria fez nas músicas de José Afonso. De acordo com Filipa Pais, uma das cantoras do projecto “Terra d’Água”, “a música portuguesa seria mais pobre se não tivesse existido um Zeca Afonso”. Com muita cumplicidade em palco, as três cantoras cantaram algumas músicas em conjunto e outras individualmente. Quando o espectáculo terminou, o público, que aplaudia de pé, saiu satisfeito e a afirmar que iria comprar o CD. “Vou comprar o disco certamente, porque adorei a junção das vozes femininas a cantarem temas de um dos grandes senhores da música portuguesa”, disse Anabela Agostinho ao NM. Já o Sr. Antunes, afirmou que gostou imenso e que o espectáculo tinha sido “bom”. A 17 de Julho, o projecto será apresentado em Roma, no âmbito do Festival Sete Sóis Sete Luas

Diário XXI - Débora Godinho

“Zeca Afonso, a vida e a obra”, por José Mário Branco

Conversas de fim de tarde 10 de Julho, das 19.00h às 21.00h
Sede da Associação Abril ( Rua de S. Pedro de Alcântara, n.º 63 – 1.º Dto. – metro Chiado)

Amigas e amigos, “maiores que o pensamento”:

A Abril vem convidar-vos para um encontro, tornado evocação ou homenagem a um Homem que lutou para que Abril acontecesse, e em Abril transformou em símbolo a sua voz, clamando a fraternidade e a justiça e fazendo bater, ao compasso da esperança, muitos dos nossos corações.

Vimos chamar-vos para ouvir a voz de José Afonso, a sua vida e a sua música, através das palavras de outro homem, também José, também músico, que viveu os mesmos sonhos, esperou e ainda espera pela “cidade sem muros nem ameias” e continua a lutar por um mundo melhor.

Sem querermos ser demasiado óbvios, mas inevitavelmente com a música do Zeca na cabeça, venham e tragam amigos também!

Um abraço carinhoso,

A presidente da Comissão Coordenadora da Associação Abril
Maria Guadalupe Magalhães

Mais um EP e um single que se juntam à discografia da página da AJA

Single"Os índios da Meia Praia" - Orfeu KSAT 586
contendo no lado B "Com as minhas Tamanquinhas"
O desenho da capa parece ser assinado por "Renie". Será?

EP "Cantares" - EMI/ Columbia SEGJ 23
Será este a primeira edição?


Obrigado ao Francisco Fanhais pela doação.