29 de julho de 2006

Como os media cobrem Israel - John Pilger


Se a sua fonte de notícias é apenas a televisão, você não terá nenhuma ideia das raízes do conflito do Médio Oriente, ou que os palestinos são vítimas de uma ocupação militar ilegal. Em Maio, o Glasgow University Media Group, notável pela sua análise pioneira dos media, publicou um estudo das reportagens do conflito israelense-palestino. Ele deveria ser uma leitura obrigatória nas salas de redacção e nas escolas de comunicação. A investigação mostrou que a falta de entendimento do público em relação ao conflito e sua origens foi preparada pelos relatos noticiosos, especialmente da televisão. Aos espectadores, afirma o estudo, raramente lhes é dito que os palestinos são vítimas de uma ocupação militar ilegal. A expressão "territórios ocupados" quase nunca é explicada. Na verdade, apenas 9 por cento dos jovens entrevistados sabiam que os israelenses eram os ocupantes que os "colonizadores" ("settlers") eram israelenses. A utilização selectiva da linguagem é importante. O estudo descobriu que palavras tais como "assassínio", "atrocidade", "linchamento" e "matança selvagem a sangue frio" eram utilizadas apenas para descrever mortes israelenses. "A extensão com que algum jornalismo assume a perspectiva israelense", escreveu o Professor Greg Philo, "pode ser vista se as declarações forem 'revertidas' e apresentadas como acções palestinas. Não encontrámos quaisquer relatos [noticiosos] a declarar que 'Os ataques palestinos foram em retaliação pelo assassínio daqueles que resistem à ocupação israelense ilegal' ". Uma vez que a verdade central do conflito é habitualmente obscurecida, nada disto é surpreendente. Noticiários e programas de assuntos actuais raramente, se é que alguma vez, recordam aos espectadores que Israel foi estabelecido em grande medida pela força sobre 78 por cento da Palestina histórica e, desde 1967, tem ocupado ilegalmente e imposto várias formas de governo militar sobre os 22 por cento remanescentes. A "cobertura" dos media há muito reverteu os papeis do opressor e da vítima. Israelenses jamais são chamados de terroristas. Os correspondentes que quebram este tabú são muitas vezes intimidados com o estigma do anti-semitismo — uma ironia lúgubre, pois os palestinos também são semitas. Tendo há muito reconhecido o "direito" de Israel a mais de dois terços do seu país, a liderança palestina tem-se contorcido a fim de acomodar um labirinto de planos, sobretudo americanos, concebidos para negar verdadeira independência e assegurar poder e controle duradouro a Israel. Até recentemente, isto era relatado acriticamente como "o processo de paz". Quando palestinos comuns gritaram "basta!" e levantaram-se na segunda intifada, armados principalmente com fisgas, eles foram abatidos por atiradores de elite (snipers) com armas de alta velocidade e com tanques e helicópteros Apache, fornecidos pelos Estados Unidos. E agora, no seu desespero, pois alguns estão a voltar-se para ataques suicidas, os palestinos aparecem nos noticiários apenas como bombistas e desordeiros, o que, como destaca o estudo de Glascow, "é, naturalmente, a visão do governo israelense". O mais recente eufemismo, "incursão", é do vocabulário das mentiras cunhadas no Vietnam. Isto significa assaltar seres humanos com tanques e aviões. "Ciclo de violência" é semelhante. Sugere, na melhor da hipóteses, dois lados iguais, nunca que os palestinos estão a resistir à opressão violenta com violência. Um Channel 4 Dispatches recentemente "equilibrou" o assalto israelense ao campo de refugiados de Jenin com um ataque palestino a um "colonato". Não houve qualquer explicação de que estes não são de modo algum colonatos e sim fortalezas armadas e ilegais que são peça central para uma política de impor controle estratégico e militar. Em 9 de Junho, a série Correspondent da BBC Television difundiu uma reportagem acerca do recente sítio à Igreja da Natividade em Belém. Aquilo foi um caso exemplar dos problemas identificados na investigação de Glascow. Foi, com efeito, um filme de propaganda da ocupação israelense apresentado pela BBC. Foi feito em co-produção com um canal americano, e os créditos listavam o produtor como Israel Goldvicht, que dirige uma companhia produtora israelense. Teria sido bonito se os autores do filme tivessem feito qualquer tentativa para desafiar os militares israelenses com quem se congraçaram. "Os israelenses estavam determinados a não danificar os edifícios", começou o narrador. "A imprensa internacional fora afastadas da Praça da Manjedoura, mas foi-nos permitido permanecer e observar a operação israelense..." Com este "acesso único" não explicado aos espectadores, o filme apresentou um Coronel Lior como o rapaz da boa estrela, garantindo "tratamento médico para qualquer ferido", dizendo um carinhoso alô num telefone móvel a um amigo em Oxford Street e, tal como qualquer oficial colonial, falando sobre e em nome dos palestinos. "Assassinos", como foram descritos pelo coronel sem serem desafiados pela equipe BBC/Israel Goldvicht. Eles eram "terroristas" e "pistoleiros", não aqueles que resistiam à invasão da sua pátria. O direito de Israel a "prender" protestatários pacifistas estrangeiros não provocou interrogações da BBC. Nem um único palestino foi entrevistado. Como o sol brilhava sobre o seu fino perfil, a última palavra foi para o bom coronel. As questões entre israelenses e palestinos, disse ele, "eram pontos de vista pessoais". Bem, não são. A brutal subjugação dos palestinos é, sob qualquer interpretação do direito, uma enorme injustiça, um crime no qual o coronel desempenha uma parte destacada. A BBC sempre proporcionou o melhor e mais refinado serviço de propaganda do mundo, porque assuntos de justiça e injustiça, certo e errado são simplesmente escamoteados tanto pelo "equilíbrio" como pela sofística liberal, alguém é ou "pro-israelense" ou "pro-palestino". Fiona Murch, a produtora executiva de Correspondent, contou-me que a Israel Goldvicht Productions não teria ganho a "confiança" do exército israelense se o produtor perguntasse questões jornalísticas reais. Foi uma cândida admissão. "Era romper um estereótipo", disse ela. "Era acerca de um homem bom e decente" (o coronel). Ela disse que devia ter visto uma série anterior de Correspondente, na qual apareciam palestinos. Penso que ela tentava apresentar aquilo como "equilíbrio" para "O sítio de Belém" — um filme que pode ser descartado como RP barata, não fosse pela sua cumplicidade com um regime que utiliza a diferença étnica para negar direitos humanos, aprisionar pessoas sem acusação ou processo, e assassina e tortura "sistematicamente", afirma a Amnistia. Goebbels teria aprovado.
Agosto/2002
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Leave your comment