8 de agosto de 2006

Entre o Porto e Coimbra - O Zeca Afonso que eu conheci

Foi durante um ensaio do grupo de serenatas do Orfeão Universitário do Porto que, pela primeira vez, ouvi esse nome pronunciado, com contagiante entusiasmo, por Roxo Leão, um tocador afamado de viola, que tinha vindo para a Faculdade de Farmácia do Porto completar a licenciatura iniciada em Coimbra. A falta da fase terminal do curso de farmácia e de engenharia na Universidade da cidade do Mondego tornava obrigatória a migração de grupos significativos de estudantes que, todos os anos, se transferiam para o Porto, onde vinham frequentar as últimas cadeiras das respectivas licenciaturas. Com estas revoadas de estudantes transferia-se, também, o influente ambiente estudantil coimbrão, culturalmente muito enriquecedor para os universitários portuenses que, assim, recebiam uma infusão de multidisciplinaridade que os cursos eminentemente técnicos ministrados no Porto e o estilo de vida que aqui se adoptava não propiciava.

O Roxo Leão era um daqueles conhecedores certificados do fado de Coimbra e um animador entusiasta da academia portuense, em tudo o que ao fado coimbrão dissesse respeito. Nessa mesma sessão de uma noite de Novembro de 1953, tomaram parte o José Vitorino Santana, que era o mais consistente fadista da nossa Academia, o Barroso, outro estudante de farmácia com carimbo de Coimbra, ele, também, um excelente tocador de viola, e os dois guitarras, o Carlos Couceiro, um executante seguro vindo, também, da cidade do Mondego para acabar no Porto a licenciatura em engenharia, e o Leonel, quartanista de Medicina, segundo guitarra e único elemento daquela tertúlia, genuinamente nortenho. No fim dos primeiros testes, em que a timidez natural de um principiante já tinha conseguido dissipar a expectativa densa que a circunstância exigente criara, todos concordaram em que eu deveria cantar os mesmos fados que o Zeca, porque, segundo as suas esclarecidas opiniões, a minha voz tinha uma estrutura musical parecida e os estilos interpretativos assemelhavam-se. Caloiro, obedeci, longe de saber o que é que esse veredicto, estando certo, significava de Iisongeiro. Contudo, e apesar de, então, essa semelhança me dizer pouco, a comparação ficou a fazer parte do meu consciente passivo, ligando-me, sentimentalmente, a esse nome que haveria de vir a ser, artisticamente, tão honrado. Passei a prestar maior atenção às canções que ele então interpretava e de que sobressaíam o fado «Incerteza», o «Contos velhinhos», o «Águia que vais tão alta», o «Meu menino é d’oiro», entre outros, e confesso o encantamento criado pela sua voz trémula e quente, que era, também, fruto do seu espírito original e sensível, voz que ora se arrastava numa dolorosa queixa, ora se erguia num grito de rebeldia e de protesto. O Zé Afonso, como outros preferiam chamar-lhe, era, sem dúvida, um estudante que cantava um fado novo que Coimbra nunca tinha ouvido.

Mas o Zé Afonso era, vi-o, depois, muito mais do que isso. Pessoalmente, encontrei esse quase-sósia canoro numa tarde de Agosto de 1956, a bordo do «Vera Cruz», a caminho de Angola. Ele viajava integrado à sua maneira (o Zeca nunca se integrou em nada) na Tuna Académica de Coimbra e o seu destino era navegar à roda da África para animar um vasto mundo de gente rica e culta que tinha decidido alugar o «Vera Cruz» para um périplo de África; eu viajava integrado no Orfeão Universitário do Porto, que seguia para Angola como agente de uma festa académica que tinha como missão apertar os nós dos laços de uma identidade lusotropical que se desejava duradoira. Cada grupo possuía a sua equipa de serenatas: a nossa era constituída pelo Rosa Araújo e o Costa Leite (guitarristas), o Hermenegildo Tavares e o Quartim Graça (violas); eram cantores o José Vitorino Santana, o Gameiro e eu. Do lado de Coimbra seguiam o Fernando Xavier e o Júlio Ribeiro (guitarristas), o Manuel Pepe e o Levi Baptista (violas); os cantores eram o Zeca Afonso e o Fernando Machado. Esse encontro fecundou uma amizade que estava destinada a crescer e que sem sobressaltos de percurso veio a ser muito grande e sincera.

Numa tarde de Agosto, quente, apesar de ser de cacimbo o tempo do calendário, o «Vera Cruz» deixou-nos no Lobito e seguiu a sua viagem, à roda do continente africano, levando consigo a «malta» de Coimbra.
Vivíamos nós, por essa altura, numa espécie de república, um vasto espaço de três quartos, uma sala e uma cozinha, num terceiro andar no Campo dos Mártires da Pátria (n.º 135), sob a vigilância aflita mas benevolente de uma velhinha, a Sr.ª D. Aninhas. Eram sete os habitantes regulares desses aposentos, mas alturas havia em que o número de comensais chegava a duplicar. Depois da viagem a Angola, um dos frequentadores desse lar aberto era o Zeca. Sempre que as deslocações da Tuna ou do Orfeão Académico de Coimbra, os seus afazeres pessoais ou qualquer decisão repentista, disparada pela sua irrequietude sentimental, o traziam ao norte, lá o tínhamos connosco, com toda a Fantasia do seu ser poético e a rebeldia do seu idealismo descomprometido. Uma das vezes (em vésperas das férias grandes de 1958), a sessão artística da Tuna ia ser no Rivoli. O Zeca apareceu, como de costume e por uma das razões de sempre. Tinha vindo «à boleia», ia cantar, estava à futrica e tinha umas horas para pôr a conversa em dia. Comeu connosco, cantarolou os fados que tencionava interpretar nessa noite — e que o Costa Leite e eu acompanhámos à guitarra —, enfiou a minha capa e batina, completando, assim, o ritual e lá descemos os dois a Rua dos Clérigos, a caminho do Teatro. Ao passarmos em frente da Igreja dos Congregados, num súbito arrebatamento, parou, fitou-me com o ar concentrado que a testa franzida denunciava — era assim sempre que falava a sério — e atirou-me a seguinte proposta: «— Oh pá (ele usava esta abreviatura quando ela era ainda erudita, tu tocas guitarra, eu toco viola e cantamos ambos. Vamos os dois fazer férias por essa Europa fora, como artistas vadios?» Sorri, creio que candidamente, para quebrar com ternura o ímpeto do seu entusiasmo.

Na verdade, não era fácil recusar tão espontânea, sincera e amiga sugestão; mas a minha vocação de aventura tinha asas mais curtas e, além disso, tinha duas cadeiras do meu quinto ano para fazer em Outubro; e as férias iam ser pequenas para pôr o estudo em dia. Sanado este breve desencontro, retomamos a marcha rumo ao Rivoli.

Este nomadismo, que era nele genómico, era uma das facetas que tornava visível a irrequietude do seu espírito! Mas foi, sobretudo, em Coimbra que convivemos e nos conhecemos melhor e que a nossa amizade cresceu e se radicou. O Zeca era, na verdade, uma criatura rara, de uma enorme originalidade: inteligente, culto, criativo e, ao mesmo tempo, bondoso e decifrável, era muito fácil gostar-se dele. Sempre que nos fins-de-semana o tempo era meu, lá ia até à velha cidade tratar do fado e das guitarradas, em correspondência a esse apelo primário que vinha da infância. E foi assim que muitos fins-de-semana passei na capital do Mondego, onde nos encontrávamos, ora na Baco ou nos lncas, ora em sua casa ou no seu verdadeiro lar, que eram as ruas de Coimbra. E foi assim que se desenvolveu, não uma estima superficial de convenções, mas uma amizade de gente nova, sem rugas, própria dos afectos simples e verdadeiros.

Além de cantar, o que nós conversámos! Os problemas de então, as preocupações humanísticas e sociais eram assuntos nunca calados nos nossos longos diálogos. O cristianismo e os seus valores, os compromissos que a dignidade humana implica; a coerência e a hipocrisia. Avessos a todas as tiranias, éramos, assim, apóstolos silenciosos de um mesmo credo. O Zeca era espontâneo, desacautelado e livre como se vivesse sozinho no Mundo!

Apesar dos anúncios iniciais premonitórios, que estiveram na origem da nossa aproximação, afinal, nós éramos muito mais irmãos pela inteligência interpretativa do mundo e pela confiança na bondade dos afectos, do que pela voz! Éramos mais parecidos calados do que a cantar.

O Zeca tinha sofrido a influência religiosa densa de uma tia «beata», que talvez tenha contribuído para que tivesse deixado, logo no limiar da adolescência, qualquer manifestação de prática religiosa, mas essa formação, que continuou a fazer parte do pavimento em que assentava como criatura, acompanhou-o até ao fim. Nunca rejeitou a essência daquilo que moldou a sua natureza inquieta e generosa e deu expoente aos seus valores sociais.
Uma vez em que, com um pequeno grupo de amigos, decidi ir a Fátima de bicicleta, amedrontado com os duzentos e vinte quilómetros que tínhamos de percorrer, resolvi, com a anuência dos companheiros de viagem, partir a meio a distância e pernoitar na república Baco, sempre a primeira a ser procurada, porque nela viviam muitos conhecidos e alguns bons amigos: o Fernando Machado, o Manuel Pepe, o Batalim, o Dario — e também porque a canção coimbrã tinha aí uma grande sede. O convívio alegre e saudável compensava bem o sacrifício de certas incomodidades do alojamento. Era também frequente o Zeca passar por lá e, nessa noite, passou mesmo. Falou-se de tudo e, obviamente, também do motivo da nossa viagem. Ficou entusiasmado com a «peregrinação» e só não nos acompanhou porque, na manhã seguinte, não conseguimos encontrar em Coimbra uma bicicleta disponível.

A convergência das nossas pessoas, sentenciada naquela noite de Inverno, nunca sofreu retrocessos ou foi posta em causa por qualquer acidente ou assintonia. Pelo contrário, foi tomando corpo, progressivamente, mais verdadeira e consciente. Quanto melhor nos conhecíamos, mais os nossos ideais batiam certo ao ritmo de um mesmo compasso. Não há dúvida de que social e humanamente assentávamos os pés num mesmo chão e que, no essencial, éramos guiados por uma bússola orientada para um mesmo norte. Menos ancorado nos valores tradicionais, o Zeca sempre foi mais solto e, por isso, vagabundo. Mas, se em alguma coisa divergíamos, era em pequeníssimos pormenores que se escondiam na espuma de certos comportamentos.

Subitamente, fui mobilizado para prestar serviço médico militar em Angola. Os três anos (de 1963 a 1966) que lá passei foram muito mais do que a interrupção fortuita de um convívio que sempre fora reciprocamente desejado. Nenhuma das minhas outras amizades sofreu com essa ausência forçada.

Quando regressei de Angola, fui reencontrar o meu Amigo Zeca em Vilar de Mouros, protagonista zangado de um extenso protesto, ora em prosa ora em verso, meio recitado, meio cantado e que tinha como objecto a história de Catarina Eufémia. A mudança senti-a, sobretudo, no abraço frio que me deu quando, no fim da longa catilinária, desceu do palco! Não me surpreendeu o seu entusiasmo pela causa abraçada. Alguém agarrou bem a sua generosidade disponível, o vazio criado pela sua bondade por realizar. Espantou-me, sim, que na sua mente independente e lúcida deixasse de haver lugar para a sublimidade poética que nos tinha feito muito amigos! Nem a poesia escapa a certas escorregadelas da lógica! Tão semelhantes e, contudo, o Zeca acabou por ser o símbolo de uma revolução que me expulsou da Universidade.

Serafim Guimarães

6 Comments:

MGomes disse...

Excelente espaço dedicado ao Zeca e às suas histórias de vida. Muitos parabéns e um abraço.

José Silva disse...

Não há dúvida que o Zeca Afonso, tal como o senhor diz, era um homem culto e inteligente.
Ele sabia ver quem o podia ou não acompanhar.
Daí o abraço frio...
Ele subiu até às estrelas o senhor ficou.

Anónimo disse...

ah como eu gostaria de ter visto o seu olhar ao vivo, talvez eu ter nascido em 65 não tenha chegado, mas a sua melodia com frieza será sempre um farol

Anónimo disse...

Meu caro anonymous said . . .

Você quis mesmo dizer frieza ???

Anónimo disse...

olá companheiro, sobre a frieza, não me estava a referir a mais nada, somente àquela sensação de frio na "espinha" quando ouço aqueles sons, sobretudo em grandes concentrações de gentes.

Anónimo disse...

Boa! Bravo!
Afinal já somos dois (e muitos mais é claro!) que se "arrepiam" ao ouvir o Zeca.
Um abraço amigo