26 de abril de 2007

Zeca contado às crianças por José Jorge Letria


Quando passam 20 anos da morte de Zeca Afonso e no mês que se celebram os 33 anos da revolução dos cravos, chega às livrarias o livro infantil Zeca Afonso – O andarilho da voz de ouro. José Jorge Letria, munindo-se da pureza encantatória da linguagem infantil, reconstrói a história do menino ao homem, e Evelina Oliveira desenha a magia narrativa com cor e emoção.

Se Zeca foi a voz de ouro, sinónimo de riqueza humana e trigo do futuro, este livro dedicado ao grão do trigo novo é o instrumento que faltava para se passar esse testemunho às nossas crianças. Por isso, e já, «Que é já tempo /D’embalar a trouxa /E zarpar» em direcção ao futuro, «Venham mais cinco» e tragam outros amigos também para que se obtenha uma seara robusta. Assim, os miúdos de hoje poderão perceber mais tarde o que é ser-se maior que o pensamento, e porque as palavras e a voz de Zeca levam ao arrepio.
Homenagem às crianças, a Zeca Afonso e à Liberdade, este livro da soberba colecção «O Sol e a Lua», da Campo das Letras, veicula ensinamentos indizíveis de sonho, coragem, resistência às amarguras, mas também educa a sensibilidade e as emoções. São propriedades de uma escrita com poética singular, a que José Jorge Letria há muito nos habituou, que provoca no leitor adulto uma inaudita comoção. Um desafio de intimidades para pais e filhos, descoberta para os miúdos, redescoberta para os graúdos, num crescimento conjunto.

Conta-se a história do menino Zeca, nascido em Aveiro, que desde muito cedo «aprendeu o sentido da palavra longe». As grandes viagens de barco que fazia para estar junto dos pais em territórios que «Portugal então dominava noutros continentes», davam-lhe tempo para sonhar, mas também para escutar as suas primeiras inquietações e medos. Em África fazia amigos, meninos negros com quem brincava numa fraternidade que o acompanharia toda a vida. Por isso, o menino Zeca não percebia a razão dos «adultos brancos», com a marca do poder e da autoridade, distinguirem as duas raças. Escolhia então ser rebelde, «porque era essa a sua maneira de ser livre». Dividido entre África e Portugal, dois mundos onde tinha amigos, «sempre com o coração a bater em dois lados ao mesmo tempo», o menino andarilho crescia nesse desassossego que lhe traçava o rumo futuro, e que seria a sua sina e o seu drama.

Refere-se que desde menino «Zeca aprendeu o valor que têm as ideias, coisas esquivas e imateriais que não se compram nem se vendem nas bancas do comércio, nos supermercados ou nas feiras». Quando em Timor os pais foram feitos prisioneiros pelos japoneses e levados para um campo de concentração, «o menino, contendo as lágrimas da tristeza e da indignação, aprendeu a não gostar da palavra “guerra”, a mesma que, mais tarde, o inquietaria e o levaria a fazer canções que falassem só de paz».

Por outro lado, se as ideias que ouvia aos tios de Aveiro eram de liberdade, outras ideias corriam em Belmonte, onde viveu, na casa do tio Filomeno que «gostava de Salazar», pelo qual foi obrigado a vestir a farda da mocidade portuguesa. Foi também lá que aprendeu o outro nome para o Papão: Salazar. Mas o papão tinha um grande ponto fraco: não conseguia lidar com a força da palavra e encarcerava o país «entre as grades do medo que mandara erguer por todo o lado». Todavia, Zeca já tinha aprendido a rebeldia e, por isso, erradicado o desânimo e o medo.

É em Coimbra, cidade que o formou e ouviu, que Zeca faz novas amizades e começa a usar a voz de ouro para cantar. É lá que encontra Humberto Delgado, general sem medo da «sofreguidão dos vampiros», que acabou por «perder as eleições que ganhou», ousadia que lhe tirou a vida. É também lá que percebe que «as grades piores até eram as que cada um deixava erguer no interior do que pensava e sonhava, tornando cada vez mais difícil a livre partilha de ideias.» Por isso, estudava e cantava procurando actualizar as mensagens dos antigos fados de Coimbra, cultivando com palavras «certeiras», «preocupadas com a vida das pessoas e com os seus problemas», palavras de união, porque «casadas com o sofrimento dos que menos tinham» para «acordar os que o ouviam do sono resignado em que se tinham deixado cair sem quase se aperceberem disso».

Surgia naturalmente a definição de «Cantor político». «Os vampiros querem calar a voz que os desmascara e condena. Mas o cantor não se cala. E já não está só. Estão com ele outros, como Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire ou Francisco Fanhais», entre muitos outros. Na página 36 irrompe a narração contígua à ilustração do último concerto de Zeca, em 1983, no Coliseu dos Recreios em Lisboa, uma fremente catarse, ainda hoje sem explicação racional.

O homem de errâncias, criador do soberbo tema «Era um redondo vocábulo» – escrito na prisão de Caxias – via fechar-se-lhe o seu ciclo de vida. José Jorge Letria descreve esse momento, da forma que se segue:

Era uma madrugada de Fevereiro, fria e húmida, e o ar começava a minguar-lhe nos pulmões. Tinha chegado a hora de partir. Nessa madrugada, uma mulher de rosto luminoso e sorridente acercou-se dele e perguntou-lhe se queria a sua companhia. Respondeu-lhe que sim, reconhecendo nela a jovem que caminhara a seu lado em Coimbra, nos dias em que Humberto Delgado era nome da esperança portuguesa. Perguntou-lhe docemente:

- És tu que me vens buscar?

E ela respondeu, apertando-lhe a mão contra o peito:

- Sim, é comigo que vais partir, mas não penses que sou a Morte. Eu sou a Liberdade, aquela que sempre amaste e seguiste e que agora se erguerá contigo nos ares, perseguindo um sonho que só acabará quando o último ser humano desaparecer deste planeta.

Texto de Teresa Sá Couto

Zeca Afonso – O andarilho da voz de ouro, texto de José Jorge Letria e ilustrações de Evelina Oliveira; Editorial Campo das Letras, Porto, Abril de 2007


1 Comment:

sophis disse...

Comprei-o ontem, lio de uma assenyada ao meu filho de 8 anos. Belíssimo.