12 de julho de 2007

José Afonso e a canção de Coimbra

José Afonso, Coimbra, 1950


José Afonso começou a cantar fados quando frequentava o liceu D. Joao III, em Coimbra. Aí conheceu Luís Goes e António Portugal, ambos um pouco mais novos do que ele, e ai se iniciou um rico percurso musical comum, só interrompido quando rompeu com o acompanhamento da guitarra e evoluiu para outro género de cançao: a “balada”. José Afonso matricula-se em 1949 na Faculdade de Letras, em Ciências Histórico-Filosóficas, e, simultaneamente, é convidado por António Brojo para o seu grupo de fados. Este grupo, depois da "geração de oiro" dos anos 20-30 (António Menano, Edmundo Bettencourt, Lucas Junot, Paradela de Oliveira, Armando Goes, Artur Paredes!) recolocou o fado e a guitarra de Coimbra ao seu mais alto nível de sempre. Para além de António Brojo e António Portugal (guitarras) e de Aurélio Reis e Mário de Castro (violas) integraram este grupo Luís Goes, José Afonso, Femando Machado Soares, Femando Rolim, Sutil Roque e Florêncio de Carvalho, entre outros. . Em 1953, e depois de muitos anos em que não se tinham realizado quaisquer gravações de fados ou guitarradas de Coimbra, foi registado um conjunto de 8 discos de 78 rotações por minuto (isto é, 16 titulos no total), onde a voz de José Afonso foi pela primeira vez fixada em fonogramas, o mesmo acontecendo, aliás, com Luís Goes e Femando Rolim. Posteriormente, em 1956, José Afonso voltou a gravar mais fados de Coimbra. E só nao terá gravado mais porque, mesmo antes de terminar o curso, já casado e com dois filhos, teve de deixar Coimbra para ganhar a vida como professor do ensino secundário. Em 1981 - 28 anos depois de ter registado os seus primeiros fados de Coimbra - José Afonso reconcilia-se com a cançao coimbrã. Grava, entao, o LP 'Fados de CoImbra e outras canções", que de­dica a seu pai e a Edmundo Betten­court. (Refira-se que o Juiz Nepomuceno, pai do cantor, foi contem­porâneo e amigo de Bettencourt). Na realidade, este cantor-poeta da geraçao da Presença, a par de José Régio, Joao Gaspar Simões, Vltorino Nemésio e outros, é, de todos os cantores de Coimbra, o melhor para José Afonso: "O Edmundo Bettencourt foi o maior cantor de fados de todos os tempos. Ele marcou uma época, foi um elemento decisivo para a melhoría do gosto coimbrão, tendo sido, acima de tudo, um grande poeta" (Entrevista de José Afonso a António Macedo, "Sete", 1979). Numa modesta autobiografia, incluida no livro de José Viale Moutinho sobre o cantor (Vozes Livres - Livraria Paisagem - 1972), José Afonso recorda a sua iniciaçao no fado de Coimbra: "As minhas primeiras veleidades de cantor surgiram quando andava no 6º ano do liceu. As noites passava-as em deambulações secretas pela cidade, acompanhado de meia dúzia de meliantes da minha idade, amantes inconsequentes da noite. Com uma guitarra e uma viola fazíamos a festa. Estávamos ainda longe do hieratismo triunfal das serenatas na Sé Velha diante de multidões atentas e respeitosas. O velho Flávio Rodrigues conti­nuava a ser o Mestre, venerado por um pequeno discipulado de guitarristas e acompa­nhadores que com ele se reuniam numa pequena casa do bairro de Celas, onde acabou os seus dias minado por uma doença fatal (...). Seguiu-se um período de promoçao fadista em que acabaram por me colocar no palanque das estrelas de primeira grandeza. Outros acompanhadores (peritos e sisudos) e outras oportunidades em viagens pro­movidas pela Tuna e pelo Orfeon. São dessa época as minhas idas a África e as tournées através da província. Recordo-me de ter participado na inauguraçao de uma auto-maca, para os Bombeiros Voluntários de Pádua e de, por diversas vezes, ter dormido ao relen­to nos pinhais do rei." Mas, a certa altura, no final dos anos 60, José Afonso rompe com o fado de Coimbra e inventa (reinventa?) a balada. Numa entrevista a José Armando Carvalho ("Comércio do Funchal", em 1970) o can­tor explica- -se: "Designei as minhas cançoes por baladas não porque soubesse exactamente o significado deste termo, mas para as distinguir do fado de Coimbra, que comecei por can­tar e que, quanto a mim, atingiu uma fase de saturação. Achava-o muito sebentarizado, como que uma liçao que se receita de cor, pouco amplo nos termos e nos propósitos, um condimento mais na panóplia turística coimbrã". Anos depois, noutra entrevista (a Fernando Assis Pacheco, "Jornal de Letras", 1982), José Afonso afirma: "O fado de Coimbra era um folclore de elite, apesar de popularizado. Atraía irresistívelmente os futricas com quem os estudantes tinham uma relaçao simultânea de carinho e ressentimento." Com a gravação de "Fados de Coimbra e outras canções", em 1981, José Afonso re­concilia-se com o fado de Coimbra. Numa entrevista concedida a Belino Costa ("Sete", de 25/11/81), o cantor reconsidera alguns excessos anteriores: "O fado de Coimbra nao é de direita nem de esquerda: é um depósito de carácter cultural (...). Quando fui fazendo cançoes que me afastaram do fado de Coimbra nunca tive a atitude condenatória de dizer que o fado de Coimbra é uma grande merda, por isso acabou, ponto final. Naquela altura vivia-se um intenso periodo de actividade antifascista e tudo o que fosse tradlçao tinha de ser rejeitado. Foi uma atitude absolutista, de certo modo despótica, que foi necessário corrigir com o tempo e hoje está a ser corrigida" . Texto de José Niza


José Afonso no liceu D. João III com Manuel Nemésio, Carlos Couceiro,
António Santos Silva, entre outros. Coimbra, 1948



José Afonso no grupo de António Brojo com Mário Mendes, Fernando Rolim,
Carlos Figueiredo, João Melo e Mário Castro


José Afonso com Carlos Couceiro (espreitando) entre outros.

Sessão de fados em Casa do Dr. Carlos de Figueiredo em Nova Lisboa, 1960.
David Leandro, Jorge de Morais(Xabregas), José Niza, Sutil Roque e José Afonso.


José Afonso canta "Adeus Mouraria" com a Orquestra Ligeira da Tuna Académica. Angola, 1958.


José Afonso com David Leandro, José Niza, Levy Baptista e Sousa Rafael
no Cine-Teatro Restauração, Luanda, 1958.

José Afonso com Gouveia e Melo, César Faustino, Adriano C. de Oliveira,
Jorge Godinho e José Niza, em Estocolmo


José Afonso com Lopes de Almeida, Júlio Ribeiro, José Tito Mackay,
Álvaro Bandeira, José Niza e Machado Soares, entre outros.


Canta Luis Goes acompanhado por Fernando Xavier, António Portugal e Manuel Pepe.
Ao fundo, Rui Neto, Machado Soares e José Afonso.








De pé: Fernando Rolim, José Afonso, Florêncio de Carvalho, Luis Goes, Augusto Camacho e Machado Soares
Sentados: Aurélio Reis, António Brojo, António Portugal e Mário de Castro. 1952

José Afonso com Durval Moreirinhas e Octávio Sérgio, aquando da gravação do disco "Fados de Coimbra e outras canções" 1981.

5 Comments:

Eduardo F. disse...

Já que puseram aqui tantas fotos, deixe-me dizer uma coisa sobre a penúltima. Calma, não vou acrescentar nada...

Só queria dizer que há uma foto igual a essa, que sofreu uma fotomontagem, ficando a nela figurar Luís Goes. Se não ligarmos muito até somos capazes de nem dar por isso. Mas quero aqui dizer que isso não se faz.

A dita foto (tal como esta) aparece no livreto das reedições (da autoria de José Niza), de 1996.

Miguel Gouveia disse...

Eduardo, tens toda a razão. Fui ver as fotos e fiquei surpreendido com os poderes mágicos do Goes. Quem terá feito isto e por que razão?

Eduardo F. disse...

Pois. Talvez o Niza saiba de alguma coisa..

Anónimo disse...

Bom dia! Desculpem a correção, mas na segunda fotografia o segundo rapaz em baixo a contar da direita é João Melo e não António Melo. Obrigada.

Joana

Manuel Portugal disse...

A razão pela qual o Dr Luiz Goes não está na fotografia original e aparece noutras é simples. A fotografia foi usada para capa de um disco e como o ele não podia estar presente para a recolha fotográfica foi deixado espaço para, através de fotomontagem com conhecimento do próprio, fosse depois incluido na referida imagem. É capa de um disco conhecido. Só não me lembro agora do título.
Melhores cumprimentos.