3 de agosto de 2009

Coimbra "resolve" relação com Zeca Afonso


A casa onde viveu José Afonso na década de 40 do século passado - um segundo andar no prédio contíguo à pastelaria Zizânia, na Avenida Dias da Silva - recebeu ontem uma placa evocativa da passagem do “estudante e cantor” que havia de marcar decisivamente a Canção de Coimbra e mais tarde o panorama nacional com a sua música de intervenção. Nos seus tempos de estudante «era igual a tantos outros», talvez «um pouco mais distraído, sarcástico, irónico e sonhador», mas nunca se considerou um mito.

Desmitificar a figura e dá-la a compreender às gerações mais novas, foi o que tentou fazer Jorge Cravo, na obra “José Afonso – Da boémia coimbrã à fraternidade utópica”, também ontem apresentada, numa iniciativa da Câmara Municipal para assinalar os 80 anos sobre o nascimento do compositor.

Um «acto de aparente simplicidade», admite o vereador da Cultura, Mário Nunes, considerando José Afonso parte importante do património da cidade e do país, cuja «memória deve ser perpetuada no tempo e no espaço».

Numa obra em que retrata a vida e obra deste cantor da resistência na sua passagem e na sua ligação a Coimbra - saiu em 1956, mas a ela continuou ligado até 1969 -, Jorge Cravo, também ele cultor da Canção de Coimbra, fala de um «estudante igual a milhares de estudantes, embora figura emblemática, grande defensor dos seus sonhos e ideias, com algumas manias e excentricidades».

Pretende o livro que «esta malta nova veja em Zeca Afonso uma referência e sigam as suas pisadas na balada de Coimbra», disse Jorge Cravo, sublinhando a inteligência e a criatividade, mas também o sarcasmo do cantor, «o pequeno génio a quem tudo se perdoava».

Rui Pato, a quem Jorge Cravo dedica o livro - «memória viva das baladas coimbrãs de José Afonso» -, admitiu ser «difícil falar de Zeca sem emoção». O médico, também figura importante da Canção Coimbra, acompanhou José Afonso entre os 15 e os 23 anos. «Uma fase muito importante da minha vida».

Homenagem é cantar
A propósito do dia de ontem, Rui Pato considerou que «a maior homenagem que pode ser feita a Zeca Afonso é continuar a cantar as suas canções, a pôr as suas músicas». «Que as homenagens não se fiquem apenas pelas placas e pelos nomes nas ruas. José Afonso devia figurar nos compêndios das escolas portuguesas, como o Chico Buarque figura nos das escolas brasileiras. As crianças deviam aprender a cantar músicas do Zeca», declarou.

Rui Pato não quis, ainda assim, retirar importância à iniciativa da cidade, através da autarquia, que vem finalmente «prestar o tributo que é devido» ao cantor. «Passou um período em que era mal amado. A primeira vez que cantou aqui foi em 1969. Hoje todos gostam de ouvir, mas na altura andava nas colectividades operárias, nos comícios e onde havia núcleos de esquerda». Para a cidade, José Afonso estava a pôr em causa as tradições, «cantava sem usar capa e batina, e ainda por cima aqueles poemas tão bizarros». Hoje, é fundamental que a cidade «resolva a sua relação com Zeca Afonso», reiterou.

No final da sessão, dois elementos do grupo Verdes Anos, António Dinis (voz) e João Martins (viola), interpretaram algumas baladas da autoria de José Afonso, que amigos, apreciadores da sua obra e cultores da Canção de Coimbra escutaram com atenção.

A cerimónia de ontem marcou o arranque de um programa de memorial, organizado pela autarquia de Coimbra, que se prolonga até dia 3 de Outubro, com acções nas áreas da música, dança, poesia, exposição biodiscográfica e um ciclo de conversas. Também ontem, dia em que cantor faria 80 anos, subiu ao palco do Teatro da Cerca de S. Bernardo o espectáculo “Tributo a Zeca Afonso”, pela Companhia Bengala.

Andrea Trindade Diário de Coimbra

1 Comment:

Eduardo F. disse...

Vejam o espantoso trabalho de um carola que dedica todo um blogue a apenas uma cantora: Violeta Parra.

Com discos, versões, cartazes, livros... tudo o que com ela estiver relacionado.

Aqui:
http://discosvioleta.blogspot.com/

A seguir.
Abraço fraterno.