29 de novembro de 2005

“JOSÉ AFONSO – GEOGRAFIAS DE UMA VIDA”


“ALGUMA COISA DO QUE SOU E FUI, FOI EM VIAGEM” José Afonso


A Associação José Afonso (AJA) inicia por ocasião da passagem do seu 18º aniversário, a mostra pública da 1ª realização do seu projecto “JOSÉ AFONSO – GEOGRAFIAS DE UMA VIDA”, este ano subordinado ao tema “MOÇAMBIQUE 1964 – 1967”.

O projecto da AJA assenta no intuito de revisitar os lugares por onde José Afonso passou e semeou o seu exemplo de cidadania, recolhendo testemunhos, notícia e documentação de toda a ordem, das suas vivências (sobretudo as de carácter cívico e cultural), ou mesmo das que indirectamente acabou por proporcionar. Anualmente, por ocasião do aniversário da AJA, far-se-á mostra pública da faceta exposicional dessa actividade.



Assim, em 2 e 3 de Dezembro de 2005, às 21H00 no anfiteatro da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal, decorrerão sessões em que veremos, ouviremos e falaremos sobre alguns exemplos de actividades que José Afonso desenvolveu quer na antiga Lourenço Marques (Maputo), quer na Cidade da Beira.


As colaborações de José Afonso em teatro e cinema que decorreram durante o período em análise serão o motivo central do evento, sendo importante referir que estas não esgotam, longe disso, a actividade de José Afonso nas referidas áreas.
Em 1965 José Cardoso, considerado um dos decanos do cinema moçambicano procede à montagem do seu primeiro filme de ficção, intitulado “O Anúncio”.

José Afonso assiste no Cine-Clube da Beira a essa operação e propõe ao autor a composição de uma canção para o filme. Aceite a oferta, surge “Vejam Bem”, que viria anos mais tarde a ser incluída no seu álbum “Cantares do Andarilho”.

Em Outubro de 1967, o filme participa no 1º Festival Nacional de Cinema de Amadores de Aveiro, e na crónica de F. Gonçalves Lavrador sobre o dito festival, publicada na Revista Vértice nº 291, de Dezembro de 1967, pode ler-se:
… “Nos filmes de enredo, ou seja, no cinema de ficção, uma grande distância separa dos restantes os dois filmes premiados, ex-aequo, na primeira posição, como aliás o júri quis destacar ao não atribuir qualquer segundo prémio.” “….Realmente , quer o “O Anúncio”, de José Cardoso (troféu de ouro do Clube dos Galitos, melhor argumento, melhor mensagem humana e melhor interpretação), quer… …revelam um cuidado sentido cinematográfico, com abandono de todas as retóricas mais ou menos gastas, de todos os artificialismos de ordem estética e de toda e qualquer tendência para o rodriguinho temático.”

“…”O Anúncio”, da Equipa Beira-64, sob a direcção de José Cardoso, foi a película mais apreciada pelo público, que lhe conferiu um prémio por votação …” “…Trata-se de um filme de construção muito clássica e linear, simples e límpido no seu desenvolvimento, parafraseando, imagèticamente e num tom que tem qualquer coisa de chaplinesco, uma canção de José Afonso com a qual abre (após uma portada com sons naturais) e finaliza. Eis uma obra que se deve apontar como um exemplo a todos.”

Por sua vez, na Revista “Tempo”, n.º 11 de 29 de Novembro de 1970, editada em Moçambique, numa crónica assinada por Maria de Lurdes, podia ler-se num artigo intitulado “Um grande cineasta da Beira”:
“ No pequeno cinema-estúdio do Bº da COOP (na cave do PH8) assistimos a uma das sessões que a Secção de Cinema de Amadores do Cine-Clube de Lourenço Marques faz às sextas-feiras”
“… A segunda parte da sessão ofereceu-nos uma surpresa ainda maior: a revelação de um cineasta da Beira, José Cardos, autor de três filmes: “Anúncio” que é a primeira realização do autor,…. “…em “Anúncio”, pequena história à maneira neo-realista, muito bem contada e com sequências de extraordinário conteúdo dramático e originalidade, o próprio José Cardoso interpreta a figura de um pobre diabo que após um dia desesperante à procura de emprego em vão, solitário e com fome, se vê compelido por um grupo de foliões a participar numa festa de Carnaval...”
“…O filme tem como fundo sonoro uma balada de José Afonso…”
“…O filme social está afinal ao alcance do cineasta amador.”

Em 7 de Fevereiro de 1971, o nº 332 do semanário moçambicano“A Voz de Moçambique”, faz capa total com uma imagem de José Afonso com o título “José Afonso a figura do ano”

Explicando a José Afonso esse galardão, menciona-se nas “... as razões de uma escolha”:
“... acordou-se, desta feita, na personalidade de José Afonso para “figura do ano” de V.M. ...”
“ ...Escolha feliz? Sim, se isso dependesse apenas da simpatia pessoal e da mensagem fraterna que constituem o carisma do trovador. Mas, de Moçambique?- perguntar-se-, legitimamente. Temos um punhado de razões a favor disso...”
“...Três LPs de nível excelente, meia dúzia de EPS, algumas deslocações ao estrangeiro, cifrando-se por um igual número de êxitos, convites honrosos e reconhecimento, por parte do público e da crítica. Em resumo ascese a uma maturidade artística a que corresponde o justo corolário da fama.”
“Ora, pensamos que um pouco de tudo isto nos cabe a nós, a Moçambique. Os factos acabados de relatar foram imediatamente precedidos pelo período de cerca de três anos que José Afonso viveu em Moçambique, e que supomos decisivos e frutuosos na gesta da sua personalidade artística. A quase totalidade das canções distribuidas pelos referidos LPs foi composta em Moçambique e algumas delas gravadas em primeira mão (por vezes em versões ligeiramente diferentes) em casa de amigos , sendo ainda frequentes – do Xipamanine à Ponta Gea – as alusões a um quotidiano que é nosso. ...”, “... O perfil límpido de uma voz que é a imagem, sem adornos, da própria fraternidade bastava para aliciar a nossa simpatia e adesão...”, “... ao creditarmos a José Afonso o título da nossa escolha, expomos-lhe o débito a Moçambique. E ficamos quites.”

LOURENÇO MARQUES 1964 – 1965

Quando fui para o Maputo, então Lourenço Marques, em 1964, estava no início da minha fase mais ou menos organizada de cantor nos meios académicos, nas associações de estudantes e nas colectividades.
Infiltrei-me em alguns meios e ía conseguindo, com as minhas cantigas, dar os meus habituais recados.”

CIDADE DA BEIRA 1965 – 1967

Cheguei à Beira e aí fui imediatamente protegido pelo Cine-Clube local...
Comecei a conviver com aqueles sujeitos, encontrei um sentido enorme de camaradagem e de solidariedade entre os seus membros.
Era uma autêntica colónia e aí apercebi-me da actividade intensa por eles desenvolvida.

Em 23 de Agosto de 1966, o Teatro de Amadores da Beira (T.A.B.) leva a cena pela 1ª vez Bertolt Brecht em Portugal, com a peça “A Excepção e a Regra”. José Afonso compôs especialmente para o efeito 5 canções: “É para Urga” (aparece também referida como “A Caminho de Urga”), “Coro dos Tribunais”, “Eu marchava de dia e de noite (Canta o comerciante)” e “Ali está o rio” todas elas publicadas, e “Canta o Juíz” que nunca terá sido editada.

Em “Livra-te do Medo - Estórias & Andanças do Zeca Afonso” de José António Salvador, João Afonso dos Santos recorda “estórias” relativas ao facto, nomeadamente a do “censor” de serviço.

Mas a Beira em 65 e 66? “Havia a tal associação que resolveu promover as comemorações da Tomada da Bastilha como se estivéssemos em Coimbra. A direcção mandou fazer uma réplica da fachada da Sé Velha em cartão ou madeira para montar na praça onde se faria a sessão comemorativa. No programa incluíram-se fados e guitarradas. Cantaria eu e o meu irmão. Uma peça do Brecht “A Excepção e a Regra” e um tipo, que por coincidência também era o censor da Beira, fazia uma aula com uns doutores vestidos de “baby-dol” a apanhar violetas. O doutor da censura resolveu cortar Brecht e em alguns cortes permitiu-se mesmo “reescrevê-lo” à margem propondo modificações ao texto. Perante isto o meu irmão, e depois eu, disse logo:”se não há Brecht, eu não canto fados”. Isto uns dias antes da festa. Ora sem fados não haveria espectáculo e o censor não poderia fazer o seu número da aula das violetas... De modo que teve de dar o dito por não dito e autorizar a representação da peça. Foi assim que o Brecht apareceu pela primeira vez no império colonial. O Zeca musicou, então, as canções que vieram a integrar o álbum “Coro dos Tribunais”. Para o tal cavalheiro censor foi um sofrimento atroz autorizar o Brecht.”


Zeca Afonso foi expulso de Moçambique pela PIDE quando, em 1972, se deslocou a Lourenço Marques para visitar os pais.


OUTRA VOZ

Outra voz outra garganta
Outra mão que se estende à que tombara
Uma fagulha num palheiro acesa
Ó meus irmãos a luta já não pára


José Afonso

Escrito na prisão de Caxias

1 Comment:

judite disse...

linda esta parceiria entre imagem e música entre o cineasta josé cardoso e o músico zeca afonso. Estou a fazer um documentário acerca do cinema de ficção moçambique em entrevista ojosé cardoso disse me que não tem o anúncio, como o projectaram será que me podem dizer onde o encontraram e como posso ter acesso ao filme. Obrigada sílvia vieira